A FRANÇA EQUINOCIAL, OU O ANTIGO SONHO DE UMA AMAZÔNIA FRANCESA

São Luís

Nas últimas semanas, as queimadas na Amazônia ocuparam o foco dos noticiários e redes sociais de todo o mundo, mas uma fala de um líder europeu se destacou. O Presidente da França, Emmanuel Macron, utilizou a expressão “Nossa Amazônia” ao se referir à grande onda de queimadas que assolam a Região, especialmente no Brasil. Entre outras afirmações polêmicas, Macron defendeu a criação de mecanismos legais que permitam a “gestão internacional da Amazônia”. O Governo do Brasil, é claro, reagiu prontamente e reafirmou a soberania do país na posse e na gestão territorial do trecho brasileiro da Floresta Amazônia. 

Vista a partir de uma perspectiva mais ampla, a fala de Macron remete aos primeiros tempos da conquista do continente Americano, quando os Reinos de Portugal e de Castela receberam uma “concessão” do Papa Alexandre VI – o Tratado de Tordesilhas de 1494, que lhes permitia dividir entre si todos os novos territórios descobertos no Novo Mundo. Países como a Inglaterra, a Holanda e, principalmente, a França, regiram prontamente a esse favoritismo da Santa Sé pelos Reinos Ibéricos e, rapidamente, começaram a se movimentar para tentar garantir o seu próprio quinhão nas Américas. O avanço de movimentos ligados à Reforma Protestante nesses países, que, entre outras coisas, questionavam a autoridade Papal, impulsionaram essa rebeldia. 

Uma das primeiras tentativas dos franceses de estabelecer uma colônia em terras americanas se deu na Baía da Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Entre os anos de 1555 e 1570, existiu na região a chamada França Antártica, uma colônia francesa que contava com o apoio dos índios Tamoios. Essa colônia foi comandada por Nicolas Dante de Villegagnon, que pretendia instalar ali uma base naval e militar, permitindo assim que o Reino da França controlasse o tráfego de embarcações em todo o Oceano Atlântico Sul e, consequentemente, todo o comércio marítimo com as Índias. Tropas portuguesas conseguiram expulsar os franceses da região em 1570. 

Outros esforços franceses foram vistos na América do Norte e no Caribe. Em 1599 foi fundada a cidade de Tadoussac, na costa Leste do Canadá, e em 1608, Samuel de Champlain fundou um porto comercial que se transformou no embrião da cidade de Quebec. Essa região do Canadá ficaria conhecida como Nova França. Em 1682, os exploradores franceses viajaram pelo delta do rio Mississipi e estabeleceram ali o Território de Louisiana, numa homenagem ao rei Luís XIII da França. Também se estabeleceram em ilhas do Caribe como o Haiti, Guadalupe, Martinica e Santa Lúcia. 

Um dos mais importantes esforços franceses para a conquista de um grande território em terras americanas foi a chamada França Equinocial, onde se englobavam áreas ao longo da Linha do Equador, chamada na época de Linha Equinocial. Desde 1594, franceses mantinham uma feitoria na Ilha de Upaon-Açú, atualmente conhecida como Ilha de São Luís, onde encontramos a capital do Estado do Maranhão. Essa feitoria era comandada por Jacques Riffaut Charles Dês Vaux, franceses que mantinham ótimas relações com as comunidades indígenas locais. 

Esses franceses conheciam em detalhes toda a região e sabiam de todas as fragilidades da falta de uma presença militar do Reino de Castela que, de acordo com as cláusulas do Tratado de Tordesilhas, era o mandatário legítimo desse território. Os franceses também perceberam a concentração de portugueses n faixa Leste do litoral do Nordeste Açucareiro. Esse vácuo deixado pelos Reinos Ibéricos representava uma excelente oportunidade para a ocupação de uma extensa região pela França. 

Charles Dês Vaux retornou a França, onde teve contatos com Daniel de la Touche, um nobre local que já havia feito viagens de reconhecimento pela região das Guianas e era um grande entusiasta da ocupação dessa região pela França. Os planos efetivos para o início da colonização foram adiados devido a morte do Rei da França, Henrique IV, em 1610. Em 1612, de la Touche recebeu a concessão para a colonização da região das mãos da Rainha Maria de Médicis, Regente da menoridade do príncipe herdeiro, Luís XIII. 

No comando de 500 colonos e de 3 navios, Daniel de la Touche tomou o rumo do Maranhão, com planos para ocupar rapidamente a maior quantidade possível de territórios. Em 8 de setembro de 1612, frades capuchinhos realizaram a primeira missa na Ilha de Upaon-Açú, onde foram iniciadas as obras de construção do Forte Saint Louis, batizado em homenagem ao futuro Rei da França. A implantação da colônia contou com o apoio dos indígenas da região que, segundo informações da época, somavam 12 mil índios, distribuídos em 27 aldeias. 

Apesar da presença de religiosos católicos, a maioria dos colonizadores franceses era formada por protestantes huguenotes que fugiam da forte perseguição religiosa em seu país. Um exemplo dessa perseguição foi a conhecida Noite de São Bartolomeu, um grande massacre de protestantes que ocorreu nas ruas de Paris na noite entre 23 e 24 de agosto de 1572. Os registros falam da morte de 5.000 a 30.000 mil pessoas – alguns cronistas da época afirmaram que “o sangue dos protestantes correu pelas sarjetas e ruas da cidade”. 

Os franceses não perderam tempo e sistematicamente ocuparam todo o Leste do atual Estado do Pará, o Norte do Tocantins e uma parte expressiva do Amapá. Essas conquistas colocavam os franceses no controle da foz do rio Amazonas, uma posição estratégica que permitia a ocupação e o controle de toda a Bacia Amazônica. 

Ciente do avanço dos franceses dentro de seus territórios, os espanhóis pediram socorro ao Reino de Portugal, que entre 1580 e 1640 esteve unido à Coroa de Espanha. Tropas coloniais estacionadas em Pernambuco, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque, foram deslocadas para o Maranhão, onde enfrentaram os franceses em sucessivas batalhas. Os franceses se renderam em novembro de 1615, quando tentaram negociar uma saída gradual da região. Essa proposta não foi aceita pelas autoridades portuguesas e os franceses foram expulsos sem qualquer compensação financeira. Uma curiosidade desses combates foi a presença de um jovem oficial português que faria história e mudaria os destinos de toda a Região Amazônica – o alferes Pedro Teixeira

Em 1626, em mais uma tentativa em se estabelecer no continente, os franceses ocuparam a Guiana e em 1635 fundaram a cidade de Caiene, a partir da qual conseguiram finalmente obter êxito na colonização. A Nova França no Canadá acabou sendo conquistada e ocupada pelos ingleses e a colonização da Luisiana foi um fiasco – o território foi ocupado pela Espanha entre 1763 e 1800, sendo depois reconquistado pela França e vendido para os Estados Unidos em 1803. O sonho dos franceses em conquistar grandes territórios no Novo Mundo acabou limitado ao território da Guiana Francesa e a um punhado de pequenas ilhas no Mar do Caribe. 

O Forte Saint Louis foi ocupado pelos portugueses e passou a ser chamado de São Luís, sendo transformado no embrião da simpática cidade de São Luís, a única capital brasileira francesa de nascimento. Para impedir novas invasões de nações estrangeiras, colonos de outras regiões do Brasil, especialmente da Capitania de Pernambuco, passaram a ser transferidos para o litoral do Maranhão. Esse foi o primeiro passo para a futura ocupação de toda a Região Amazônica, que, com o devido respeito a Monsier Emmanuel Macron, é Nossa! 

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