OS SALMÕES DO RIO TÂMISA E OS “TRAÍRAS” DO RIO TIETÊ

Londres aéreo

Eu tinha uns 10 ou 11 anos de idade quando vi uma reportagem na TV falando dos problemas de poluição no rio Tietê, que naqueles tempos cresciam a olhos vistos. A certa altura, o repórter começou a conversar com Shigeaki Ueki, um importante Ministro do ciclo dos Governos Militares. Perguntado sobre essa questão, o Ministro afirmou que o Governo planejava todo um conjunto de obras de saneamento básico e que, entre 10 e 15 anos, o rio estaria completamente limpo. 

Se essa promessa do Governo Federal e do seu “governo fantoche” no Estado de São Paulo há época tivesse sido cumprida, o rio Tietê estaria limpo no início da década de 1990 e todos nós poderíamos estar pescando, navegando e nadando nas suas águas. Eu sinceramente desconheço qual era a fauna aquática original do antigo rio Tietê, mas posso afirmar que nela se encontravam as traíras, uma espécie de peixe comum em todas as bacias hidrográficas do Brasil. Infelizmente, por causa de promessas de outros “traíras”, que na gíria aqui de São Paulo e de outras regiões do país significa traidor, as promessas não foram cumpridas e o Tietê está no topo da lista de rios mais poluídos do Brasil. 

Vamos falar hoje de um outro rio, que já foi muito mais poluído que o Tietê, e que graças ao esforço monumental de sucessivos Governos, voltou a ser um rio limpo e cheio de ida. Falamos do rio Tâmisa, o mais importante rio da Inglaterra. 

Como a maioria de vocês deve lembrar dos tempos de escola, a Revolução Industrial começou na Inglaterra em meados do século XVIII. O aperfeiçoamento da máquina a vapor pelo matemático e engenheiro escocês James Watt deu um verdadeiro impulso aos sistemas de produção da época e a Inglaterra passou a produzir produtos em série, numa escala que, guardadas as devidas proporções, lembra a China atual. A Inglaterra se tornou uma grande potência econômica e militar, pagando um alto preço ambiental e social para isso, com altíssimos níveis de poluição do ar e da água, montanhas de resíduos de todos os tipos, além de uma grande massa de trabalhadores explorados até os limites da dignidade. 

Uma das maiores vítimas de toda essa poluição foi o rio Tâmisa, que corta a cidade de Londres no sentido Leste-Oeste, e que recebia grandes cargas de todos os tipos de efluentes, que iam dos esgotos domésticos de sua gigantesca população até resíduos de produtos químicos de todos os tipos. Um marco da poluição do rio se deu no verão do ano de 1858, quando algumas sessões do Parlamento Britânico, que fica numa das margens do Tâmisa, tiveram de ser suspensas – ninguém aguentava o mal cheiro que as águas exalavam. Depois de dois meses de náuseas e muito incômodo, os Parlamentares aprovaram um projeto que já estava pronto há cinco anos – o início das obras do sistema de esgotos de Londres. Lentamente, a história do rio Tâmisa começaria a mudar. 

A cidade de Londres foi fundada pelos romanos há mais de 2 mil anos e recebeu o nome de Londinium, palavra que, segundo algumas fontes, significa algo como “seguindo o rio”. A localização estratégica da cidade, com farta disponibilidade de água e cercada por terras aptas para agricultura, além de fácil acesso ao oceano, só fez por aumentar a importância e a boa reputação da cidade, que passou de sede de província romana a corte do Reino da Inglaterra, e depois a capital do Império Britânico. 

O rio Tâmisa nasce no condado de Gloucestershire e suas águas percorrem cerca de 346 km até encontrarem as águas do Mar do Norte. Ao longo do seu curso, o rio atravessa algumas importantes cidades da Inglaterra: Oxford, Eton, Wallingford, Reading, Windsor e Londres. A navegação fluvial é, desde os primeiros anos da ocupação romana, uma importante via para o transporte de passageiros e cargas entre essas cidades. Aos tempos da Revolução Industrial, diversos canais de navegação com eclusas foram construídos, aumentando ainda mais os volumes de cargas transportadas. O rio Tâmisa era o “coração e as veias do Reino”. 

Existem relatos já do ano de 1610 falando da baixa qualidade das águas do rio Tâmisa para consumo humano, problemas que não chegam nem perto daqueles criados pela intensa poluição que surgiu na esteira da forte industrialização do país. A partir da década de 1860, com a implantação dos sistemas de esgotos de Londres, a situação do rio Tâmisa começou a melhorar, mas a solução não foi definitiva. O sistema de esgotos que foi implantado não tratava os esgotos – as tubulações da rede captavam os esgotos e simplesmente os redirecionavam para despejo no rio Tâmisa abaixo da cidade. Em 1950, o decadente rio Tâmisa foi considerado biologicamente morto. Foi a partir dessa época que começaram os investimentos para a construção de estações de tratamento de esgotos em toda a calha do rio Tâmisa. 

Em meados da década de 1970, depois de cerca de 25 anos de investimentos no tratamento dos esgotos das cidades, um salmão nadando nas águas do rio foi visto por moradores. O salmão é uma espécie de peixe que passa a maior parte da sua vida nas águas dos oceanos, mas que há época da reprodução entra nos rios e sobe a correnteza em busca de águas calmas para acasalar e desovar. A espécie é bastante exigente no quesito qualidade das águas – se esse salmão estava nadando no rio Tâmisa, era um sinal de que as coisas estavam indo muito bem, obrigado. 

Atualmente, já são encontradas cerca de 121 espécies de peixes no rio, numa lista que inclui, além do salmão, linguados, percas, arenques e lampreias. Também são encontradas cerca de 400 espécies de invertebrados aquáticos, além de uma infinidade de aves e anfíbios. Eventualmente, até golfinhos e focas têm subido as águas do rio Tâmisa para dar um “alô” aos londrinos, que se aglomeram aos milhares nas margens urbanizadas para se maravilhar com essas aparições. 

O rio Tâmisa é considerado hoje o mais limpo de todos os rios que cruzam as grandes cidades do mundo e é, de longe, uma das grandes atrações turísticas da cidade. A cada ano, centenas de milhares de turistas de todos os cantos do mundo percorrem as suas águas em uma verdadeira frota de barcos de turismo, ávidos por admirar as suas muitas pontes, castelos e construções históricas como o Parlamento Britânico. 

Enquanto o Tâmisa pulsa de vida, nosso bom e velho rio Tietê continua tão morto como antes. Nas duas últimas décadas foram feitos pesados investimentos em obras para o rebaixamento da sua calha com o objetivo de reduzir as enchentes que, historicamente, sempre assolaram a cidade de São Paulo. Também foram feitos investimentos na construção de redes de coleta e em estações de tratamento de esgotos em muitas cidades da Região Metropolitana. Infelizmente, em algumas cidades como Guarulhos, a segunda maior cidade do Estado de São Paulo, praticamente todo o esgoto gerado por uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes é jogado diretamente nas águas do Tietê. 

Graças a essa falta de planejamento na execução de obras em todas as cidades da bacia hidrográfica na Região Metropolitana de São Paulo, o Tietê continua poluído e morto. E, diferente de Londres, o nosso parlamento – a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, fica bem longe das margens do rio. Quem sabe, se nossas “otoridades” fossem obrigadas a sentir o mal cheiro do rio em suas “raras” sessões parlamentares, quem sabe alguma coisa mais efetiva estaria sendo feita em prol do rio. 

Muitos são os paulistanos que, como eu, ainda sonham em assistir uma grande piracema nas águas do nosso rio Tietê. Se os londrinos conseguem ver hoje os salmões subindo novamente o Tâmisa, por que nós não podemos sonhar? 

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