OS RISCOS AO MASQOUF, A CARPA ASSADA IRAQUIANA, OU FALANDO DOS PROBLEMAS DA BIODIVERSIDADE DO RIO TIGRE

Maqouf

A orgulhosa Bagdá foi pensada para ser grande – a cidade planejada foi fundada no dia 30 de julho de 762 pelo califa Almançor, com o claro objetivo de se transformar na capital do império islâmico. Foram necessários quatro anos do trabalho de mais de 100 mil trabalhadores, que levaram a cabo os projetos dos maiores engenheiros, projetistas e artistas daquela época. Entre as muitas tradições legadas pela histórica cidade ao mundo está o masqouf (ou masgouf)um prato a base de carpa grelhada. 

masqouf é uma espécie de prato nacional do Iraque. Vendedores do grelhado eram encontrados por todos os cantos das cidades; em Bagdá existiam restaurantes especializados na preparação do prato. Nos lugares mais sofisticados, as carpas eram mantidas vivas em um tanque – o cliente escolhia a carpa que queria comer, que era abatida, limpa e temperada na hora. O peixe limpo recebia sal apenas na parte interna, sendo colocado numa grelha fechada e com a parte interna voltada para as brasas (vide foto). O peixe ficava pronto em 45 minutos, sendo servido com cebolas e picles. O consumo dessa iguaria multicentenária, lamentavelmente, está sob ameaça – a intensa poluição das águas de rios como o Tigre, entre outros problemas “mais graves”, estão impedindo a pesca e a produção de carpas em cativeiro. Vamos entender essa história: 

De acordo com a tradição judaico-cristã a que nós ocidentais estamos mais acostumados, logo depois de criar o homem e a mulher, Deus fez um “paraíso na terra” para que eles pudessem habitar: o Jardim do Éden. A descrição dos livros sagrados dessas religiões deixa muito clara a localização desse paraíso: uma terra entre as águas dos rios Tigre e Eufrates. Nos séculos seguintes, essa região passou a ser conhecida no Ocidente com o nome de Mesopotâmia, palavra composta de origem grega que significa, literalmente, “terra entre rios“. 

Segundo evidências arqueológicas, essa região foi ocupada por volta do 7° milênio a.C. pelos primeiros agrupamentos humanos civilizados. As linhas de pesquisa apontam que a agricultura em larga escala começou a ser desenvolvida nas terras férteis do Sul a partir do 5° milênio a.C., inclusive com o uso de sistemas de irrigação. Com a fartura de águas oferecidas pelos rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia rapidamente se transformou num dos celeiros do mundo antigo, recebendo, em conjunto com o Vale do rio Nilo, o nome de Crescente Fértil. Sucessivas civilizações floresceram nessas terras: sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos, entre outros, não pouparam esforços para conquistar a região. A Mesopotâmia sempre foi uma região rica, disputada e instável. 

Essa instabilidade prossegue até os nossos dias: dos três países que formam as bacias hidrográficas dos rios Tigre e Eufrates, dois enfrentam guerras civis – Síria e Iraque; a Turquia, onde ficam as nascentes desses rios, vive uma relativa paz interna; o Governo central, porém, enfrenta sérios problemas com grupos pró-independência da região Curda nas regiões Leste e Sudeste do país, além de várias disputas milenares com outros grupos, como os armênios. Sem nos alongarmos muito mais em questões históricas, grande parte dos conflitos da região estão ligados à partilha dos territórios e formação artificial dos países por interferência de grandes potências ocidentais, uma divisão que não respeitou conflitos milenares entre diferentes grupos étnicos, e, principalmente, a disputa pelo controle das grandes reservas de petróleo da região. 

No caso do Iraque, o país foi formado pela fusão, num mesmo território, de três grupos humanos bem diferentes: os sunitas e os xiitas, duas vertentes opostas do islamismo, além dos curdos, um grupo étnico com origem, religião e língua diferente do resto do país. Além desses três grupos principais, o Iraque possui vários grupos menores como cristãos e judeus, entre muitas outras minorias étnicas. Governar esse verdadeiro “balaio de gatos” nunca foi uma das tarefas mais fáceis. 

Entre 1979 e 2003, o Iraque foi governado por Saddam Hussein, um ditador sanguinário de origem sunita. Apesar da relativa prosperidade econômica do seu Governo, garantida pelos altos rendimentos com a venda de petróleo, Saddam Hussein perseguiu e exterminou grupos curdos do Norte do país, se envolveu numa sangrenta guerra com o Irã (1980-1988), país vizinho de maioria xiita, além de invadir e anexar o Kuwait (1990), sob alegação que a região era uma província histórica do Iraque. Uma poderosa coligação militar comandada pelos Estados Unidos expulsou os iraquianos do Kuwait cerca de 6 meses depois. 

Após a derrota e expulsão do Kuwait, o regime do ditador Saddam Hussein passou a enfrentar uma série de conflitos internos. O colapso total do regime começou em 2001, logo após o atentado às Torres Gêmeas de Nova York, quando o Iraque passou a ser classificado pelos norte-americanos como um dos países formadores do “Eixo do Mal”. Em 2003, uma Coalizão Militar Internacional iniciou uma intervenção no Iraque, removendo Saddam Hussein do poder. O ditador tentou fugir do país, mas foi capturado, julgado e condenado à morte em 2006. 

E o que toda essa confusa histórica do Iraque em décadas recentes tem a ver com as carpas assadas de Bagdá?  

O rio Tigre, em conjunto com seu rio irmão, o Eufrates, acabaram sendo transformados em locais de desova para milhares de corpos das vítimas dos inúmeros conflitos entre os diversos grupos que lutam pelo controle do país. Cadáveres flutuando nas águas dos rios passaram a fazer parte das “paisagens” do país, principalmente no rio Tigre, que corta a cidade de Bagdá. Habitante do ecossistema aquático do rio Tigre, a carpa comum (Cyprinus carpio), que é um peixe onívoro originário da região do Cáucaso na Eurásia, passou a incluir a carne humana desses mortos no seu cardápio, para desespero dos clérigos muçulmanos.

Os muçulmanos ou islamitas, como preferem ser chamados, seguem o halal, um rigoroso conjunto de comportamentos, formas de vestir e de falar, e especialmente de alimentos que podem ser consumidos e que são permitidos pela religião. Se para qualquer pessoa civilizada já seria complicado consumir a carne de um animal que se alimentou de carne humana, para um crente que segue os ensinamentos do Islã é algo simplesmente inadmissível – a situação se complica ainda mais pelo fato de muitos dos mortos “desovados” nos rios serem de fé muçulmana. Quando as primeiras notícias dessa tragédia começaram a circular no Iraque, muitos clérigos (líderes espirituais das mesquitas) publicaram fatwas, decretos religiosos, proibindo o consumo da carne das carpas dos rios. 

A criação de carpas em cativeiro passou a ser uma alternativa para contornar os fatwas e abastecer o mercado, garantindo a preparação do tradicional masqouf. Tanques flutuantes para a criação dos peixes passaram a ser vistos nas cercanias das principais cidades do país, especialmente no rio Tigre. Em 2016, a produção de carpas em cativeiro no Iraque atingiu a marca de 29 mil toneladas, apesar da intensa poluição das águas, que sofrem com o lançamento de esgotos domésticos, industriais, lixo e “muitos outros resíduos”

Em outubro de 2018, uma nova tragédia se abateu sobre o rio Tigre – milhões de carpas começaram a morrer nos tanques de criação. Inicialmente, circularam notícias que falavam do lançamento de veneno nas águas do rio por um dos muitos grupos armados em luta no país. Estudos posteriores mostraram que a causa da mortandade dos peixes foi um surto do vírus do herpes Koi (KHK), inofensivo para os seres humanos, mas mortal para esses animais

A desova de corpos e a poluição das águas dos rios, os fatwas, e, mais recentemente, o surto do vírus do herpes, levaram a grandes questionamentos acerca da qualidade das carpas e a uma forte diminuição do consumo dessa carne no Iraque. O masqouf, é claro, ainda continua a ser servido, porém, em um número cada vez mais restrito de restaurantes e usando apenas carpas criadas em cativeiros de cidades muito distantes do rio Tigre. Os preços populares de outrora da iguaria, agora estão absurdamente salgados e muito distantes das posses da imensa maioria dos habitantes do país. 

Ameaças à biodiversidade das águas também causam prejuízos à cultura dos países.

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