OS TUBARÕES DO RIO SÃO FRANCISCO

Tubarão cabeça-chata

O título da postagem de hoje se parece com as manchetes de alguns jornais e tabloides sensacionalistas, que fazem jogos de palavras para chamar a atenção do público e vender mais exemplares nas bancas. Apesar de, aparentemente, parecer absurdo, as águas do baixo curso do rio São Francisco estão sendo visitadas por tubarões numa frequência cada vez mais alta. Deixem-me explicar o que está acontecendo: 

Consta nos livros de história que a descoberta da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem à São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes, que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo, no Estado de Alagoas, distante cerca de 40 km da foz. Os indígenas que habitavam essa região chamavam o rio de Pará, palavra que em tupi-guarani significa “rio-mar” ou “rio do tamanho do mar”, o que confirma essa percepção da grandeza do rio São Francisco. 

Em décadas mais recentes, após a construção de grandes barragens como a de Sobradinho e a de Xingó, a força dos caudais do rio São Francisco diminuiu de forma exponencial, mostrando toda a fragilidade ambiental da região. Essa redução dos caudais na direção da foz minou as forças do Velho Chico, deixando-o cada vez mais vulnerável ao avanço das águas do mar terras a dentro. Hoje, a salinização das águas do Baixo São Francisco é um dos maiores problemas regionais, afetando desde a pesca e a agricultura até a saúde das populações, cada vez mais exposta ao consumo de água com altos níveis de sal. Para ter acesso a água potável, moradores das margens do Baixo São Francisco precisam, muitas vezes, viajar vários quilômetros em busca de nascentes dos pequenos afluentes do rio ou de cacimbas, onde a água ainda não está contaminada com altos níveis de sal. 

A alta salinidade da água consumida por essas populações é fatal para a saúde dos seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro. Já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro. As águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas/litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente. Em algumas cidades e vilarejos próximos da foz está acontecendo uma verdadeira epidemia de moradores com hipertensão arterial, entre outros problemas de saúde. 

Um dos sintomas mais visíveis dessa salinização das águas do baixo São Francisco é uma verdadeira invasão de espécies marinhas, que estão colonizando trechos do rio cada vez mais distantes da foz. A lista inclui diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos. Outra evidência do avanço das águas salinas são as formações de mangue, espécies de plantas adaptadas a áreas de águas salobras, que cada vez mais avançam continente a dentro. Também estão se tornando frequentes os relatos feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões na calha do Baixo São Francisco. 

Os tubarões da espécie cabeça-chata (Carcharhinus leucaslideram as ocorrências de avistamento e captura no Baixo São Francisco. Os cabeças-chatas são uma das espécies de tubarões que mais se envolvem em ataques a pessoas em todo o mundo. A espécie é muito comum em águas tropicais e, por esta razão, é frequentemente avistada nas águas do litoral da Região Nordeste. Numa extensa lista de ataques de tubarões a banhistas na Região, especialmente nas praias do Estado de Pernambuco, os cabeças-chata são os agressores mais citados pelas autoridades. 

A espécie, que também é conhecida como tubarão-touro, possui um corpo avantajado e uma boca desproporcionalmente grande para o seu tamanho. Possui dentes serrilhados e uma mordida muito forte, o que torna seus ataques quase sempre fatais paras as presas, incluindo-se aqui banhistas. Os animais tem uma tonalidade cinza escura, uma camuflagem que torna a sua visualização no momento dos ataques bastante difícil para as presas. As fêmeas da espécie, que são maiores que os machos, podem atingir até 3,5 metros de comprimento. 

Uma característica dos tubarões cabeça-chata é a sua capacidade de sobreviver por longos períodos em águas salobras e doces. Há relatos de espécimes que foram capturados no rio Amazonas, nas proximidades de Manaus, cidade que fica a mais de 1.500 km das águas do Oceano Atlântico. Com a redução dos caudais do São Francisco e com o avanço das águas salinas para o interior da calha do rio, os tubarões cabeça-chata passaram a se sentir praticamente em casa. Essa mudança na fauna aquática, que seria equivalente a uma raposa passar a morar no galinheiro, está alterando toda a cadeia trófica ou alimentar, onde os tubarões passaram a ocupar o posto de principal predador. 

Vivendo em seu habitat marinho natural, os tubarões cabeça-chata enfrentam uma competição ferrenha por alimentos com outras espécies de tubarões, como o tubarão-tigre, uma outra espécie bastante comum nas costas do Nordeste. Como os estoques de alimentos, apesar de muito grandes, são limitados, as populações das espécies animais encontram um ponto de equilíbrio. Aqui é importante lembrar que, dentro desse ambiente de intensa competição por alimentos, os filhotes dos temidos cabeças-chatas também se tornam presas de outras espécies, um outro fator que limita o crescimento da população dessa espécie. 

Com a colonização de um novo ambiente, onde o tubarão cabeça-chata passa a ocupar o topo da cadeia alimentar, há uma tendência de um aumento progressivo da sua população e um avanço da espécie na predação dos peixes de água doce, animais que sempre habitaram a calha do Baixo São Francisco. Essa competição “quase” natural pelos peixes vai afetar um outro grande predador que, até bem pouco tempo atrás, ocupava o topo da cadeia alimentar local: o homem. E essa não é uma das melhores notícias para os pescadores locais – os estoques pesqueiros do rio, há muito tempo, já não são os mesmos de décadas atrás devido à grande degradação das águas do São Francisco. 

A colonização da região da foz do São Francisco por tubarões cabeça-chata pode trazer no seu encalço os riscos de ataques a banhistas, pescadores, ribeirinhos e lavadeiras, mulheres que, tradicionalmente, se reúnem em grupos para lavar roupas na beira do rio. Sem nunca ter se preocupado com a presença desse feroz predador em suas “vizinhanças”, qualquer uma dessas pessoas pode ser surpreendida com uma grande sombra avançando na sua direção através das águas do rio. Na última década, foram registrados mais de 40 ataques de tubarão nas praias do Estado de Pernambuco e, pelo menos, 13 pessoas morreram – a maioria desses ataques foi de tubarões da espécie cabeça-chata. Esse é o risco a que as populações da região podem estar expostas

E se as águas são boas para a vida dos cabeça-chatas, nada impede que outras espécies comuns na região como o tubarão-tigre e o tubarão-galha-preta também queiram desfrutar das oportunidades e recursos desse novo habitat. 

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