PIRARUCU, O BACALHAU “GENÉRICO” DA AMAZÔNIA

Pirarucu

Nas postagens anteriores, apresentamos vários exemplos de espécies da fauna aquática e semi-aquática brasileira que tiveram suas vidas altamente comprometidas pela degradação de rios e lagos e que, em muitos casos, estão correndo sérios riscos de extinção. Entre as espécies citadas falamos, entre outras, de capivaras, dourados, pituspiabanhas. A degradação da qualidade das águas e o represamento dos cursos d’água estão entre as principais causas desses processos. Uma outra fonte de problemas é a superexploração de um recurso natural. Um exemplo histórico que podemos usar é o caso do pirarucu dos rios da Amazônia. 

O pirarucu (Arapaima gigas), também conhecido como arapaima ou peixe pirosca, é o maior peixe de escamas dos rios brasileiros e um dos maiores do mundo, podendo atingir até 3,5 metros de comprimento e um peso de até 250 kg. O animal é um grande predador onívoro dos rios da Bacia Amazônica, se alimentando de peixes, caramujos, crustáceos, anfíbios, cágados e cobras, entre outros, de uma enorme lista de presas. Quando jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos que vivem livres nas águas dos rios, passando depois a comer pequenos peixes. O peixe pode viver até 18 anos. 

A espécie possui uma grande cabeça achatada, com mandíbulas salientes e um grande corpo cilíndrico. Uma das características físicas mais interessantes do pirarucu é o fato da espécie possuir dois sistemas respiratórios. Como ocorre com a imensa maioria dos peixes, o pirarucu possui um sistema de brânquias para respiração aquática – esse órgão consegue extrair o oxigênio dissolvido na água. Também possui uma bexiga natatória modificada, que funciona como um pulmão e que permite que o pirarucu também realize a respiração aérea, uma característica chamada na biologia de “respiração acessória”. Esse mecanismo de respiração extra é fundamental nos períodos da seca, quando os rios Amazônicos tem seus níveis dramaticamente reduzidos e um peixe com as proporções do pirarucu ficam sujeitos a riscos de encalhe ou aprisionamento em poças d’água. 

No seu dia a dia, os pirarucus sobem frequentemente até a superfície para respirar ar fresco, uma característica de comportamento que expõe os peixes aos arpões, flechas e redes de pescadores, ribeirinhos e indígenas. Desde longa data, a carne do pirarucu está no topo da preferência das populações da Amazônia. Certa feita, visitando o famoso mercado do Ver-o-peso, na cidade de Belém do Pará, primeiro fiquei impressionado com a visão dos balconistas colocando um imenso exemplar de pirarucu em um dos balcões; depois, fiquei surpreso com a velocidade que o peixe foi cortado em inúmeras postas e vendido a diversos clientes da peixaria Uma senhora comentou que não era sempre que pirarucus chegavam ao mercado e que era preciso aproveitar a ocasião. 

Uma forma comum de se encontrar pirarucus a venda na região Amazônica é em “mantas” salgadas, similares ao bacalhau. Aliás, o pirarucu é conhecido como o “bacalhau da Amazônia”. Ao contrário do que muitos podem imaginar, a alcunha não se deve ao formato das peças de peixe salgadas, mas sim a uma grande “esperteza” de padres Jesuítas que, durante décadas a fio em tempos antigos, processavam os pirarucus em suas fazendas espalhadas por toda a Floresta Amazônica e exportavam os peixes para Portugal, onde as peças eram vendidas ao público como um “legítimo” bacalhau. Aqui vale esclarecer que não existe uma espécie de peixe com o nome de bacalhau, mas sim várias espécies de peixes oceânicos, especialmente da família Gadidae, que são limpos, cortados da mesma forma, salgados e vendidos com o nome genérico de bacalhau. 

Os Jesuítas começaram a chegar à região Amazônica nas primeiras décadas do século XVII, quando acompanhavam as guarnições militares de Portugal, enviadas para construir fortificações para assegurar as possessões do Reino na América do Sul. Assim que se instalavam em uma determinada região, os religiosos rapidamente iniciavam os trabalhos de catequese, que nada mais eram que esforços para “civilizar” e converter os indígenas à religião católica. 

No início das atividades dos Jesuítas na Amazônia, havia um número bastante pequeno de aldeamentos de índios reduzidos (expressão usada para indicar os índios transferidos para um aldeamento), no trecho de costa entre o Maranhão e o Pará. Em 1751, eram 63 aldeias somente na região Amazônica, de um total de 80 aldeamentos que existiam na Colônia. Deste total, 66 eram dos Jesuítas e as 14 restantes estavam distribuídas entre frades das Mercês, Capuchinhos, Santo Antônio e Franciscanos. 

Com o passar do tempo, a maior parte das missões dos Jesuítas acabou transformada em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixes salgados – principalmente o pirarucu, tartarugas e madeiras. Precisamos destacar aqui as chamadas “drogas do sertão”, uma série de condimentos “genéricos” com características similares às famosas “especiarias do Oriente”, que eram vendidas a peso e preço de ouro na Europa. Aqui se incluem pimentas, açafrão, curry e outros temperos, além de cravo e canela, produtos que eram vitais em uma época quando não existiam equipamentos para a refrigeração e conservação das carnes

Um outro produto que fazia parte das exportações das fazendas dos Jesuítas era a gordura de peixe-boi, um produto muito valorizado na época e utilizado na iluminação pública. A gordura de baleia era o produto mais utilizado para esse fim, mas o Brasil nunca foi um dos grandes produtores. Os baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Malvinas da Argentina) já no século XVII e abatiam a maioria das baleias no Sul do Oceano Atlântico antes que elas atingissem o litoral brasileiro. 

Os indígenas, que eram hábeis remadores em suas canoas e mais hábeis ainda no uso do arco e das flechas, realizavam grandes expedições nos rios da Amazônia e capturavam grandes quantidades de pirarucus, que eram pré-processados e salgados ainda em campo. Já nas fazendas, os peixes eram cortados em formatos parecidos com o dos bacalhaus “verdadeiros”. As peças recebiam mais uma salga e depois eram armazenados em barricas de madeira, que era a embalagem mais adequada para o transporte desse tipo de produto na época. Em poucos anos, os Jesuítas se transformaram nos maiores exportadores da região, totalmente isentos do pagamento de impostos, em prejuízo aos demais colonizadores da província. 

Essa verdadeira indústria exportadora somente terminou quando da expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), estadista e diplomata, ainda hoje, uma das figuras mais controversas e carismáticas da história de Portugal. Todos os bens dos Jesuítas foram confiscados, entre eles cerca de 150 mil cabeças de gado, centenas de imóveis por todo o país, 26 engenhos de açúcar e, pelo menos, 30 engenhocas de cana produtoras de cachaça

Devido à falta de qualquer estudo anterior, é praticamente impossível se determinar qual foi o impacto dessa intensa pesca de pirarucus em toda a Bacia Amazônica ao longo dos séculos XVII e XVIII. Pelos relatos históricos que chegaram aos nossos dias, podemos supor que a espécie era muito abundante nos rios da região. Com o fim das atividades comerciais dos Jesuítas, houve uma grande redução na captura da espécie, mas a pesca e a comercialização nunca cessaram. Atualmente o pirarucu é uma espécie altamente vulnerável e ameaçada de extinção em vários rios da Amazônia. A situação só não é mais crítica por que, nos últimos anos, surgiram vários projetos para a conservação, criação em cativeiro e de pesca sustentável da espécie

Como se nota, a ganância e a superexploração de uma única espécie, nesse caso o pirarucu, pode ser tão devastadora ao meio ambiente e à biodiversidade como a poluição das águas e a construção de barragens de usinas hidrelétricas. 

2 Comments

  1. […] Já o pirarucu (Arapaima gigas), esse é um dos peixes mais típicos da Bacia Amazônica. A espécie pode chegar a um comprimento de 3 metros e a um peso superior aos 250 kg, sendo considerado uma das maiores espécies de peixes de escamas de água doce do mundo. O pirarucu foi intensamente caçado por causa da qualidade e sabor de sua carne, estando na lista das espécies mais vulneráveis dos rios da Bacia Amazônica. Durante o Período Colonial, as aldeias dos Jesuítas instaladas na região processavam e salgavam o pirarucu, que depois era vendido em Portugal sob o rótulo de “bacalhau da Amazônia”.  […]

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