AS AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE DAS ÁGUAS, OU FALANDO DE CAPIVARAS, FUTEBOL E FEBRE MACULOSA

Zizito

Dentro de poucos dias, este blog Água, Vida & Cia, vai completar 3 anos de existência. Nesse período, foram publicadas cerca de 800 postagens, tratando dos mais diferentes problemas ligados aos recursos hídricos e à poluição das águas. Se você pesquisar em nosso arquivo, vai encontrar inúmeras publicações falando sobre saneamento básico, resíduos sólidos, poluição, irrigação e agricultura, mineração, geração de energia elétrica, bacias hidrográficas e temas similares. 

Nessas últimas semanas, temos acompanhado um tema incômodo nos noticiários – os casos de febre maculosa em várias regiões do país e a responsabilização das inocentes capivaras pelo avanço da doença. Em um condomínio residencial da cidade de Itatiba, no interior de São Paulo, um grupo de capivaras está sendo abatido com autorização da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado. O motivo: um morador do condomínio morreu vítima de febre maculosa e, para evitar a propagação da doença, foi determinada a eliminação de todos os animais do bando.  

Essa situação lamentável está acontecendo em um momento complicado – a capivara foi escolhida como mascote da Copa América, um campeonato continental de seleções de futebol. Ao mesmo tempo que o Zizito (vide foto), um personagem representando uma capivara, entretém as torcidas nos estádios de futebol brasileiros, as capivaras desse condomínio estão sendo capturadas em armadilhas e depois mortas através da aplicação de uma injeção letal, algo que está revoltando muita gente. Pegando uma carona nesta trágica história, vamos dedicar algumas das nossas próximas postagens a outros animais que estão enfrentado problemas semelhantes em nossos rios, represas e lagos. 

A febre maculosa é uma doença infecciosa provocada pela bactéria Rickettsia rickettsii, que é transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma cajennense). Como as capivaras são hospedeiras naturais do carrapato-estrela, elas, involuntariamente, acabaram envolvidas num grande surto da doença que está em andamento em diversas regiões do país. Existe um detalhe aqui que não vem sendo considerado: a capivara é apenas uma das hospedeiras desse carrapato – ele também é encontrado em animais de grande porte como cavalos e bois, aves domésticas, roedores e, eventualmente, até em cães. O carrapato-estrela é hematófago, ou seja – se alimenta de sangue, e qualquer animal que apareça em seu caminho e tenha potencial para lhe oferecer um “rápido lanchinho”, será transformado, mesmo que temporariamente, num hospedeiro. 

Mas, como é mais fácil jogar a culpa em uma pobre espécie animal que teima em sobreviver em pequenos córregos e rios poluídos pela humanidade, que as capivaras paguem com a própria vida por todos esses males. Medidas básicas de saneamento como o abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos, coleta e destinação correta dos resíduos sólidos, carpina e manutenção de terrenos baldios e áreas verdes, entre outras medidas, que muito ajudariam no controle do vetor da doença – o carrapato-estrela, estão sendo deixadas de lado. 

A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é o maior roedor do mundo, podendo atingir um peso de 90 kg e até 1,2 m de comprimento. Ela ocorre nas principais bacias hidrográficas da América do Sul, onde é encontrada em rios, lagos e pântanos que se encontrem em altitudes inferiores a 1.300 metros e a Leste da Cordilheira dos Andes. Animal extremamente rústico, a capivara se adapta facilmente a ambientes degradados e poluídos. Um exemplo da resiliência da espécie são os grandes grupos de capivaras que passaram a viver nas margens e águas do rio Tietê, dentro da Região Metropolitana de São Paulo. Esse trecho do rio é considerado o de águas mais poluídas do Brasil. 

Em Itatiba, um pequeno grupo de capivaras encontrou, há alguns anos atrás, um habitat nas margens de um córrego que atravessa o terreno do condomínio Ville de Chamonix. Sem incomodar ninguém, as capivaras foram ficando e o grupo foi crescendo, chegando a cerca de 30 animais, entre adultos e filhotes. A “pacífica” convivência entre humanos e animais silvestres ficou abalada após a morte de um morador do condomínio, vítima da febre maculosa, em janeiro de 2018. Após a divulgação da notícia, uma parte dos moradores que já não simpatizava com a presença dos animais, passou a exigir a remoção ou eliminação imediata dos animais. No local vive um total de 480 famílias. 

De acordo com informações da administração do condomínio, foram propostas outras medidas para controlar a situação, entre elas a remoção do bando para outro local ou até a castração dos animais. A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, entretanto, passou a considerar o local como uma área de risco para a febre maculosa e determinou o abate dos animais. Uma empresa foi contratada para fazer a captura e o abate dos animais. Até o dia 18 de junho, cerca de 20 capivaras já haviam sido mortas

Uma medida tão radical para o controle da doença dividiu os moradores do condomínio e vem provocando reações por todos os lados. Diversas entidades de proteção à vida animal têm se pronunciado, afirmando que a simples eliminação das capivaras não vai resolver o problema – os carrapatos-estrela vão continuar existindo no meio ambiente e será questão de tempo até que encontrem outro animal hospedeiro. Diante de todas as repercussões negativas provocadas pela medida, o Ministério Público de São Paulo pediu maiores informações à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Uma representação contra o abate das capivaras foi protocolada pelo Ministério Público em 27 de maio e, devido à burocracia, ainda está em andamento. 

Existem casos confirmados de febre maculosa nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco. Um dos locais onde o surto da doença é mais grave é a cidade de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Até o último dia 12, já existiam 47 notificações da doença na cidade. O principal foco do surto é a região de entorno de um grande terreno baldio com cerca de 120 mil m², que é atravessado por 2 córregos. Esses córregos desaguam na Lagoa da Pampulha, já dentro da cidade de Belo Horizonte, local onde existem grandes grupos de capivaras. Esses animais, de quando em vez, sobem o curso desses córregos para se alimentar da densa vegetação que cobre esse terreno. Aliás, a palavra capivara vem do nome tupi-guarani dado ao animal –  kapi-wara, que significa “comedor de capim”. Nesse caso, basta se manter o terreno limpo e com a vegetação cortada para manter as capivaras bem longe. 

Assim como está acontecendo em Itatiba e Contagem, existem grandes grupos de capivaras em muitos dos lugares onde estão sendo relatados surtos da doença, que, mais dia menos dia, poderão também ser responsabilizadas pela transmissão da doença e poderão enfrentar o mesmo fim dos animais de Itatiba. Já existe uma vacina contra a febre maculosa brasileira, porém, ela é pouco indicada por garantir apenas uma proteção parcial e a doença ser considerada pouco frequente e de tratamento simples e rápido. Os casos fatais da doença são relativamente raros. 

Essa questão da febre maculosa lembra muito o caso dos macacos que vivem dentro de áreas urbanas das grandes cidades da Região Sudeste e que, no ano passado, passaram a ser responsabilizados por vários casos de febre amarela urbana. Centenas e mais centenas de saguis, micos e macacos de diversas espécies, foram abatidos a tiros, a pauladas ou ainda envenenados por moradores, que imaginavam estar controlando assim o avanço da doença. Como está acontecendo nesse caso com as capivaras, era bem mais fácil, naquela época, jogar toda a culpa da febre amarela nos macaquinhos. Os grandes criadouros dos mosquitos Aedes Aegypt nas casas dos moradores, esse era, então, um problema bem menor e que podia ser lançado para um segundo plano. 

A história nos ensina que, para problemas difíceis e complexos, não existem soluções fáceis

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