ÁGUA E GERAÇÃO DE ENERGIA

Itaipu

Em uma postagem recente, quando apresentamos um balanço sobre as chuvas de verão em São Paulo, falamos rapidamente sobre o baixo nível de parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas, um problema que pode ameaçar o abastecimento de energia elétrica no Brasil. Como é do conhecimento de todos, a maior parte da energia elétrica usada no país vem das usinas hidrelétricas e dependemos sempre de boas temporadas de chuvas para encher esses reservatórios e garantir a geração contínua de energia. 

Nos últimos anos, entretanto, vem sendo difícil manter um adequado equilíbrio entre a oferta e a demanda de energia elétrica – o consumo de eletricidade pelos brasileiros não para de crescer, enquanto que a oferta de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas se mantém estagnada. Para conseguir atender a toda essa demanda, as usinas hidrelétricas precisam trabalhar a pleno vapor, “gastando” grande parte da água dos seus reservatórios. Nos períodos de seca, as autoridades do setor elétrico são obrigadas a ligar todo um conjunto de usinas termelétricas, alimentadas a carvão, gás e óleo combustível, para conseguir manter a produção de eletricidade no país até a chegada de um novo período de chuvas e o início do processo de enchimento dos reservatórios. 

O problema é que, de alguns anos para cá, o período anual de chuvas não tem sido suficiente para conseguir recuperar os níveis de grande parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas. E como a geração de energia elétrica por outras fontes renováveis como a solar e a eólica ainda são muito pequenas no país, o Brasil tem ficado cada vez mais refém das usinas termelétricas, uma fonte de geração cara e muito poluente. Para completar o quadro, as restrições ambientais e as dificuldades para se conseguir o licenciamento de grandes usinas hidrelétricas com formação de lagos não é nada fácil. Esse é um assunto muito importante e vale a pena dedicarmos algumas postagens a esta questão. 

Vamos começar falando de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil, responsável pela geração de, aproximadamente, 15% de toda a energia elétrica consumida no país e por 90% do consumo do Paraguai, nosso vizinho e sócio no empreendimento. A energia de Itaipu é lançada no Sistema Interligado Brasileiro, sendo distribuída para todo o país através das empresas Furnas Centrais Elétricas e COPEL – Companhia Paranaense de Energia, sob coordenação do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. 

Itaipu iniciou suas operações em maio de 1984 e, em quase 35 anos de operação, já gerou mais de 2,6 bilhões de MWh, emergia que seria suficiente para iluminar todo o mundo por cerca de 40 dias. A produção anual média de Itaipu nos últimos anos está na casa de 98,5 milhões MWh – em 2016, a hidrelétrica atingiu a marca histórica de 103,1 MWh. A única outra usina hidrelétrica do mundo que consegue chegar próxima desses volumes de produção é a chinesa Três Gargantas, que ainda não está em plena operação. Quando estiver em pleno funcionamento, Três Gargantas terá uma produção de energia elétrica 60% maior que Itaipu.

A decisão para a construção de Itaipu se deu nos gabinetes de Brasília na década de 1970, no auge do chamado Período Militar. Preocupados com a demanda de energia do país na época e no futuro, os tecnocratas do Governo convenceram os Generais da viabilidade da construção de uma gigantesca barragem no rio Paraná, na divisa entre o Brasil e o Paraguai. Naquela época, questionar uma decisão com esta envergadura representava, no mínimo, uma longa estadia numa das muitas prisões nos chamados “porões da ditadura”. Falar em impactos e danos ao meio ambiente então, seria algo criminoso pelos padrões da época. 

A negociação com o Paraguai, país que compartilha com o Brasil as águas do rio Paraná no trecho da obra, foi um dos únicos obstáculos ao avanço do empreendimento. Também governado por uma ditadura militar e “dono” de uma eloquente pobreza, o Paraguai rapidamente foi dominado pelo “canto da sereia” dos brasileiros. O Brasil se comprometeu a pagar a conta da construção de Itaipu e, em troca da sessão de suas águas e território, o Paraguai se transformaria em “sócio”, com direito a 50% da usina hidrelétrica, o que foi um excelente negócio para os nossos vizinhos.  

Um dos momentos mais marcantes e dramáticos da história do rio Paraná, que foi justamente quando ele passou a ser conhecido brevemente por todo o mundo, se deu quando as comportas da Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas em 27 de outubro de 1982 e o enchimento do lago da represa encobriu o Salto das Sete Quedas após 14 dias. Consideradas as maiores cachoeiras do mundo em volume d’água, com o dobro do volume das Cachoeiras do Niágara na divisa dos Estados Unidos e Canadá, e com dez vezes o volume das Cachoeiras de Vitória, na Zâmbia, as Sete Quedas desapareceram sob as águas barrentas do lago.  

A comoção nacional criada pelo fim das Sete Quedas na época acabou resultando em um número crescente de visitantes ao Parque Nacional localizado na cidade de Guaíra. O público correu em massa para o rio Paraná para se despedir das famosas e inigualáveis cachoeiras. No dia 17 de janeiro de 1982, a superlotação de uma passarela de acesso a uma das quedas d’água, resultou na ruptura da estrutura de concreto e centenas de pessoas caíram nas águas – 32 pessoas morreram no acidente. A tragédia teve grande repercussão nos meios de comunicação, mas pouca coisa agregou ao inevitável drama final das Sete Quedas. 

O lago que foi formado com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu tem espelho máximo de 1.350 km², mais que 3 vezes maior do que a Baía da Guanabara. Esse lago abrange áreas de quinze municípios paranaenses e um sul-mato-grossense, além de diversas cidades no lado paraguaio. O lago de Itaipu mudou radicalmente a geografia humana e econômica de uma extensa região. Infelizmente, a construção da barragem não inclui uma eclusa, algo que possibilitaria a interligação fluvial das hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná, algo que teria um profundo impacto econômico regional. Recentemente, a Itaipu Binacional contratou uma empresa francesa para realizar estudos para a construção dessa eclusa. 

Diferente da maioria das usinas hidrelétricas brasileiras, Itaipu é alimentada pelas águas do poderoso rio Paraná, um rio que tem grandes afluentes com nascentes em diferentes regiões brasileiras. A extensa área de drenagem envolvida garante que sempre haja grandes volumes de água chegando até as turbinas geradoras.

A grandiosidade de Itaipu contrasta com a situação de inúmeras pequenas e médias usinas hidrelétricas espalhadas pelos mais diferentes rios do Brasil. A partir da próxima postagem, vamos contar as histórias, desafios e os problemas de muitas delas.

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