RUINA MONTIUM – A DEVASTADORA TÉCNICA DE MINERAÇÃO CRIADA PELO IMPÉRIO ROMANO

Las Médulas

Ao ver as imagens da destruição provocada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração como no recente caso de Brumadinho ou ainda revendo a tragédia de Mariana em 2015, você poderá ficar com a impressão que esses desastres são o resultado de processos de mineração irresponsáveis do mundo moderno. Ao contrário do que talvez aparente, a mineração em larga escala vem produzindo tais catástrofes há milhares de anos. As antigas minas de ouro do Império Romano em Las Médulas, na Província de León na Espanha, farão você mudar de ideia. 

A exploração de ouro nesta região, que fica próxima da cidade de Ponferrada, surgiu por volta do ano 25 a.C, poucas décadas depois da conquista da Hispânia pelas tropas do Império Romano. A partir de trabalhos de prospecção mineral em montanhas da região, os governantes romanos descobriram que os solos locais abrigavam fabulosos veios de ouro e não pouparam esforços para a mineração do precioso metal. Ao longo dos dois séculos seguintes, os romanos empregaram cerca de 60 mil trabalhadores livres em operações de lavra, retirando cerca de 1,65 milhão de quilos de ouro da região

Sem contar com explosivos para o desmonte das rochas, os engenheiros romanos utilizaram seus conhecimentos em obras hidráulicas para desenvolver uma técnica de exploração mineral que passou a ser conhecida como Ruina Montium, que significa literalmente “destruição da montanha”. Utilizando a força hidráulica de grandes volumes de água, os trabalhadores forçavam a erosão das rochas e o carreamento de grandes volumes de sedimentos, que eram vasculhados minuciosamente na busca por pepitas e resíduos de ouro, numa técnica que lembra muito a exploração de ouro de aluvião aqui no Brasil. 

Essa água era coletada em fontes localizadas em montanhas próximas e transportada até as minas através de complexos sistemas de aquedutos e canais, que numa extensão total somada tem aproximadamente 300 km. A água era armazenada em grandes tanques, em uma quota de mais de 250 metros acima do nível das minas – era essa altura que gerava a poderosa pressão hidráulica para o desmonte das rochas. Conforme as necessidades da mineração iam surgindo, os trabalhadores cavavam túneis através das rochas, que seriam usados para direcionar fluxos violentos de água com alta pressão contra áreas de interesse. A cada uma dessas operações, trechos inteiros das montanhas ruíam. Uma dessas montanhas, o monte Medilianum, praticamente desapareceu. 

No ano 77 d.C, Caio Plínio, um dos mais importantes naturalistas da antiguidade, visitou as minas de Las Médulas e ficou chocado com a devastação dos solos que lá encontrou: 

 “O que acontece é muito além do trabalho de gigantes. As montanhas estão rasgadas com corredores e galerias feitas pelas luzes de lamparinas, que duram até a troca de turnos. Por meses, os mineradores não podem ver a luz do sol e muitos deles morrem dentro dos túneis. A esse tipo de mina tem sido dado o nome de Ruina Montium. As rachaduras feitas nas entranhas das pedras são tão perigosas que seria mais fácil achar purpurina e pérolas no fundo do mar que fazer cicatrizes na rocha. Como fizemos perigosa a terra!” 

No século II d.C., após o esgotamento das reservas de ouro em Las Médulas, os romanos abandonaram a região. A paisagem deixada para trás mais parecia com a superfície do planeta Marte – grandes crateras e rochas vermelhas espalhadas por uma extensa região despida de qualquer traço de vegetação. As antigas montanhas cobertas por florestas e toda a vida animal local simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. A antiga rede de nascentes de água das montanhas e os rios em uma área com milhares de quilômetros quadrados, foi substituída por poças de lama e grandes montes de pedra, tornando os solos locais praticamente imprestáveis para qualquer futura atividade agropecuária. 

Em 1997, as ruínas das minas de ouro de Las Médulas foram transformadas em Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO – Órgão das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura: uma trágica lembrança de quão destrutiva a humanidade pode ser. A devastação ambiental em larga escala deixada pelos antigos romanos é hoje um importante destino turístico da Província de León. Como praticamente não houve qualquer ocupação humana posterior na região, as ruínas das minas, dos aquedutos e de outras construções romanas permanecem praticamente intactas. 

Com o passar do tempo, e falamos aqui de vários séculos, a região de Las Médulas conseguiu recuperar parte de suas características naturais, voltando a ser coberta por bosques e passando a abrigar novamente vida animal. Uma característica interessante desses novos bosques é a grande presença de castanheiras, uma árvore que não pertencia à flora original e que passou a colonizar os solos graças à intervenção humana. Os romanos consumiam castanhas trazidas de outras regiões do seu Império e, acidentalmente, muitas dessas dessas caíram no chão e brotaram.

Esses novos bosques se transformaram em refúgios para espécies animais que perderam espaço em outras regiões da Espanha. O lugar é hoje lar de espécies como o javali (Sus scrofa), a corsa europeia (Capreolus capreolus) e o gato-montês (Felis silvestris), um felino raro que pode pesar até 7 kg. Perto de uma centena de espécies de aves, além diversas outras espécies de répteis e anfíbios, completam a fauna local. 

Essa recolonização dos solos por árvores exóticas tem um paralelo interessante com a faixa Leste do litoral do Nordeste brasileiro. Essa faixa era coberta originalmente pela Mata Atlântica, uma densa formação vegetal que se estendia desde o Rio Grande do Sul até algumas áreas do interior do Ceará; em alguns trechos, ela entrava pelo interior do Brasil chegando até o Paraguai. A chamada Zona da Mata nordestina sucumbiu a ferro e a fogo diante da cultura da cana-de-açúcar. Ao longo de quase três séculos, as matas foram derrubadas e queimadas para expansão dos canaviais e produção do açúcar, restando ao final uma terra arrasada e a nua. Coqueirais surgidos a partir de cocos trazidos por maus portuguesas desde a Índia passaram a ocupar o litoral do Nordeste, criando paisagens que mais lembram as ilhas do Oceano Pacífico. 

Imagino que, em séculos futuros, arqueólogos e outros estudiosos venham a se espantar com a fauna e a flora que surgiu em áreas destruídas por atividades mineradores irresponsáveis desses nossos dias. Quem sabe o que o futuro reservará para os desolados vales dos rios Doce e Paraopeba, entre outros, destruídos por nossa gananciosa e  irresponsável geração… 

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