O DESAPARECIMENTO DO LAGO POOPÓ NA BOLÍVIA POR CAUSA DE REJEITOS DE MINERAÇÃO

Lago Poopó

Numa postagem publicada aqui no blog em 13 de abril de 2017, divulgamos uma das notícias mais terríveis da área dos recursos hídricos – o desaparecimento do Lago Poopó, no Altiplano boliviano. A notícia não tratava de um lago qualquer, mas sim do segundo maior corpo d’água da Bolívia, um lago de água salgada, com um tamanho equivalente a seis vezes a Baía da Guanabara ou três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, que, literalmente, desapareceu no ar.  

O “finado” Lago Poopó ficava (é estranho usar esse tempo passado) no departamento de Oruro, região que faz divisa com o Chile, onde o espelho d’água se espalhava por uma área que podia chegar a 2.500 km² nos períodos de cheia. O nível do lago se encontrava numa altitude de 3.686 metros acima do nível do mar, com uma profundidade média de 2,5 metros, podendo chegar em alguns trechos a 6 metros. O Altiplano é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e no Sul do Peru. 

A hidrologia do Lago Poopó estava ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo de água da América do Sul, localizado ao Norte, na divisa da Bolívia com o Peru. Um conjunto de aproximadamente vinte e cinco rios, formados a partir do degelo de glaciares no alto dos Andes, corre para as terras mais baixas do Altiplano alimentando o Lago TiticacaUma fenda natural na parte Sul do Titicaca, conhecida como rio Desaguadero, funcionava com uma espécie de “ladrão”, escoando todo o excedente de água na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo, que funcionava como lago terminal da bacia hidrográfica. Ciclos de evaporação das águas e realimentação via drenagem do Lago Titicaca mantinham a estabilidade do Lago Poopó

O destino do Lago Poopó começou a ser selado a partir da redução do nível do Lago Titicacaque baixou cerca de 1 metro nos últimos anos, o que reduziu a quantidade de água drenada pelo rio Desaguadero. Para aumentar o problema, o Governo local realizou obras no Desaguadero, desviando as águas para outras regiões, para usos em sistemas agrícolas e abastecimento de comunidades (o Titicaca tem água doce). Sem receber os despejos sistemáticos de água do Lago Titicaca, o Lago Poopó começou a secar

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Lago Poopó, porém, tem outro componente bombástico – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros da região nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais, assunto que temos falado bastante nas últimas postagens. O Lago Poopó foi transformado “na barragem de rejeitos” do Altiplano, recebendo sedimentos arrastados pelas escassas chuvas ao longo dos séculos. O acúmulo desses rejeitos reduziu gradativamente a profundidade do lago e amplificou os efeitos da evaporação das águas.  

O nível de contaminação das águas do Lago com metais pesados chegou a um nível altamente crítico, resultando na mortandade de 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentavam destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados do Poopó, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro em uma região próxima, um corpo d’água que também está secando. Nesse novo ambiente, a carência de nutrientes está afetando a saúde dessas aves – as vistosas penas rosas passaram a apresentar uma cor branca. Especialistas da Bolívia calculam que cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas, desapareceram junto com o Lago Poopó

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das águas do Poopó, o seu “território”. Essas comunidades tinham como fonte principal de alimentos um grupo com 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é formado pelo espelho d’água dos diversos lagos do país e eles não podem cultivar as terras, um território que pertence aos indígenas da etnia Aymaras

O desaparecimento do Lago Poopó foi um longo e contínuo processo de degradação ambiental, denunciado sistematicamente por anos a fio por ambientalistas e especialistas em recursos hídricos da Bolívia. Essas denúncias contaram com forte apoio de órgãos de imprensa opositores ao Governo do Presidente Evo Morales. Dentro da forte ideologia política do Governo boliviano, a sistemática redução dos níveis do Lago Poopó “foi uma consequência do aquecimento global, um fenômeno provocado pelas grandes nações capitalistas do Hemisfério Norte.” Nenhuma providência prática para controlar ou reduzir o problema foi tomada. 

A Bolívia tem uma longa história de exploração selvagem dos seus recursos naturais, uma trágica herança do período colonial. O antigo Vice-Reino do Peru, do qual a Bolívia fazia parte, se mostrou, já nos primeiros anos após a conquista pela Espanha, como uma das mais promissoras províncias minerais do Novo Mundo. A descoberta das minas de prata de Potosí, em 1545, consolidou ainda mais essa realidade. Em 1611, a cidade homônima que surgiu no local já tinha uma população de 150 mil habitantes, a segunda cidade mais populosa do mundo, só ficando atrás de Paris. De acordo com dados oficiais, saíram das minas de Potosí, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 31 mil toneladas de prata, metal que enriqueceu a Espanha e condenou a Bolívia ao subdesenvolvimento atual. Para efeito de comparação, o Ciclo da Mineração no Brasil  Colonial produziu cerca de mil toneladas de ouro.

Usando a farta mão de obra indígena local, escravizada e explorada aos limites das suas forças, a mineração da prata utilizou milhares de toneladas de mercúrio, um elemento altamente tóxico, para separar o metal precioso dos rejeitos minerais, entre esses o chumbo e o arsênico. O resultado de séculos dessa mineração predatória: altíssimos níveis de contaminação dos solos, o que tornou a agricultura impraticável na região, além de fontes de água com alarmantes concentrações de metais pesados e contaminantes diversos. Inúmeros casos doenças como o câncer e a má formação de fetos assombram as populações locais, que ainda dependem fortemente da mineração da pouca prata que restou na região. 

Como se vê, o desrespeito ao meio ambiente e a Cordilheira dos Andes no Altiplano são, desgraçadamente, lados diferentes de uma mesma paisagem… 

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