SÃO PAULO: TERRA DA GAROA E DO CERRADO

Parque Trianon

Na última postagem falamos do Cerrado Paulista, um bioma que já ocupou uma área equivalente a 14% da superfície do Estado de São Paulo e que hoje está limitado a uma área total equivalente a 1% dessa superfície, distribuídos em milhares de fragmentos  de vegetação isolados. O bioma é praticamente desconhecido pela população paulista pois, grande parte dessas cobertura vegetal, foi destruída pelo avanço da cafeicultura rumo ao Oeste do Estado ainda no século XIX. Muito provavelmente, essa destruição do Cerrado Paulista nesse passado distante levou junto inúmeras nascentes de água e rios, cuja existência nem chegou a ser catalogada pela ciência.

Na postagem de hoje, vamos falar sobre uma curiosidade: de acordo com os resultados de uma pesquisa recente, os famosos campos do Planalto de Piratininga, local onde foi fundada a cidade de São Paulo em 1554 e sobre os quais nós paulistanos e muitos de vocês já tinham ouvido falar nos tempos do ensino fundamental, eram na verdade grandes manchas de campos de Cerrado. Isso quer dizer que foi a maior cidade brasileira quem inaugurou o processo de destruição do bioma. Depois de atravessarem a densa cobertura da Mata Atlântica na Serra do Mar, os primeiros exploradores que chegaram ao Planalto de Piratininga encontraram extensas regiões de campos abertos, com uma farta disponibilidade de cursos d’água e muita caça – nessas áreas de campos existiam diversas aldeias indígenas, que exploravam e viviam dos fabulosos recursos naturais que a terra lhes oferecia.

O estudo em questão foi elaborado pelo botânico Ricardo Cardim, que se baseou em antigos documentos e cartas dos primeiros moradores da antiga Vila de São Paulo de Piratininga, onde eram feitas descrições detalhadas da paisagem local. Esses textos falavam de campos abertos, com vegetação rala e outras características que, claramente, se referiam a uma área coberta por vegetação típica de Cerrado. O crescimento desenfreado da cidade, especialmente ao longo do século XX, destruiu a maior parte da antiga cobertura vegetal da região, ficando assim bastante difícil se determinar exatamente quais eram e onde se localizavam cada tipo de cobertura vegetal.

A “reconstrução” virtual das antigas paisagens paulistanas feitas por esse estudo permitiu a elaboração de um mapa com a localização dos diferentes biomas dentro da mancha urbana da cidade – um artista plástico usou essas informações para criar ilustrações com a vegetação de cada uma das regiões. O antigo Planalto de Piratininga era uma área única – a região era o ponto de encontro da Mata Atlântica, do Cerrado e de um trecho da Mata das Araucárias; já as áreas de várzea do Planalto, especialmente as do rio Tietê, apresentavam uma vegetação e uma fauna similar a do Pantanal Mato-grossense.

Uma das características locais que pode ajudar a explicar essa verdadeira miscelânea de sistemas florestais é o clima local – a cidade de São Paulo é cortada pelo Trópico de Capricórnio, que marca o limite entre as áreas tropicais e sub-tropicais do planeta. A região onde fica a cidade de São Paulo está na transição entre os climas Tropical de Altitude e Sub-Tropical, sofrendo ainda uma forte influência do clima Tropical Atlântico – apesar da altitude superior aos 800 metros, a cidade está a apenas 70 km do Oceano Atlântico. Quem mora na cidade de São Paulo e na Região Metropolitana está acostumado a viver as quatro estações do ano em um único dia. A garoa, uma chuva rápida com finíssimas gotas d’água, era um fenômeno climático diário criado por esse clima tão particular da cidade e que acabou perpetuada na memória coletiva como um dos símbolos de São Paulo.

Bairros localizados em áreas planas da cidade como a Barra Funda, Santana, Bairro do Limão, Casa Verde, Pari, Brás, Belém, Vila Prudente, Itaim Bibi, Butantã, Ibirapuera, Moema, Brooklin e Santo Amaro, entre outras, eram cobertos por campos de Cerrado. No bairro de Pinheiros havia uma grande concentração de Araucárias – daí a origem do nome do bairro. As florestas de Mata Atlântica se concentravam nos terrenos mais altos e nas áreas de serra. O maciço onde se encontra a famosa Avenida Paulista, coração financeiro da cidade, era coberto por vegetação de Mata Atlântica. O Parque Trianon (vide foto), localizado em frente ao MASP – Museu de Arte de São Paulo, preserva até hoje um fragmento sobrevivente da Mata Atlântica.

Uma característica importante das terras do Planalto de Piratininga, que vem de encontro a esse estudo, era a grande quantidade de nascentes e cursos d’água que existiam na região – conforme já comentamos em postagens anteriores, as áreas de Cerrado são chamadas de “berço das águas”. Os solos do bioma absorvem grandes volumes de água nos períodos das chuvas, água essa que vai jorrar pelas nascentes durante todo o ano. De acordo com informações históricas, existiam entre 300 e 2 mil cursos d’água somente na área do município de São Paulo – a diferença nos números se deve às fontes consultadas. Grande parte desses córregos e riachos desapareceram durante o processo de crescimento da cidade – a fim de se liberar novas áreas para construções, os cursos d’água eram canalizados, aterrados e esquecidos. De quando em vez, durante a realização de obras, se redescobrem alguns desses cursos d’água.

Nas últimas postagens, temos falado sistematicamente dos problemas ambientais que estão devastando as áreas do bioma Cerrado. A agricultura ocupa o topo da lista dos agressores e seu avanço está comprometendo nascentes e cursos d’água, fora e fauna, além de populações, que já sofrem problemas no abastecimento de água em alguns períodos do ano. Essas áreas de Cerrado com seus problemas parecem ficar muito distantes de nós e de nossas grandes cidades. É extremamente didático saber que, em séculos passados, parte considerável das terras onde se localiza hoje São Paulo, a maior cidade do país, já foram coberto por vegetação típica do Bioma Cerrado – e tudo que restou desse sistema florestal são relatos antigos de cronistas e escritores, que colocaram no papel as suas impressões das paisagens que enxergavam.

Tanto a garoa quanto o Cerrado desapareceram para sempre das paisagens da cidade de São Paulo – que isso nos sirva de alerta sobre a fragilidade da natureza.

 

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