RIO JURUÁ: DO OUTRO LADO DO ACRE

Rio Juruá

Finalizando as postagens sobre a navegação por hidrovias na Região Sudoeste da Amazônia, precisamos falar do Juruá, um outro grande desconhecido entre os inúmeros rios da grande bacia hidrográfica do Rio Amazonas. E olhem que quando uso o termo “grande desconhecido” ao falar do Juruá, estou falando de um rio com quase 3,3 mil km de extensão, com nascentes no Cerro das Mercês, no Peru, e foz no rio Solimões. Além de atravessar diversas províncias no país vizinho, o rio Juruá atravessa quatro municípios no Estado do Acre e mais sete no Amazonas

A navegação no rio Juruá não é das mais fáceis – ele é considerado o rio mais sinuoso da Amazônia e navegar por suas águas exige muita atenção dos comandantes das embarcações – bastam alguns minutos de desatenção e corre-se o risco de uma aproximação perigosa das “barrancas” do rio. Entre as cidades mais importantes atravessadas pelo rio destacam-se Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre, com uma população próxima dos 80 mil habitantes, e Carauari e Eirunepé, ambas no Estado do Amazonas, com, respectivamente, 21 e 26 mil habitantes. Na maior parte do Brasil, cidades deste porte seriam consideradas pequenas – no meio da Floresta Amazônica, onde os rios são a principal via de comunicação e transportes de pessoas e de cargas, podemos considera-los aglomerados populacionais de bom tamanho. 

O formato do Estado do Acre, para quem já teve a curiosidade de consultar num atlas geográfico, tem o formato de um arco de caça antigo. Na metade mais ao sul deste arco, encontramos a capital do Estado, Rio Branco, e outras importantes cidades como Xapuri, Manoel Urbano, Sena Madureira, Assis Brasil, Brasileia e Porto Acre. Essa é a região mais densamente povoada do Estado e foi colonizada a partir da navegação pelo rio Purus e de afluentes como o rio Acre. A metade mais ao Norte do Estado é bem menos povoada e sempre foi interligada ao restante da Amazônia através da navegação pelo rio Juruá. 

A história da navegação no rio Juruá também está associada à exploração do látex a partir das últimas décadas do século XIX, porém desenvolvida de uma forma isolada do resto do território do Acre. Para que se tenha uma ideia do isolamento da região, a distância entre a cidade de Cruzeiro do Sul e Rio Branco é de aproximadamente 632 km, bem maior do que o trajeto entre as duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Belo Horizonte. O isolamento é tal que a nascente do rio Moa, na divisa com o Peru e considerado o ponto mais extremo do país na direção Oeste, fica a pouco mais de 150 km de Cruzeiro do Sul.  

Falando-se em termos Amazônicos, onde tudo é superlativo, essa distância pode até não parecer tão grande nos dias atuais, época em que dispomos de carros, ônibus e aviões. Até poucas décadas atrás, eram poucas as opções de ligação por terra entre as duas regiões do Estado do Acre – na região do vale do rio Juruá dentro do Estado da Amazônia, até hoje não há rodovias. A via fluvial continua sendo uma das principais alternativas de comunicação e transportes. Já houve época em que, para ir de um extremo do território até o outro, era preciso descer o rio Juruá até atingir o Solimões; depois, descer algumas centenas de quilômetros rio abaixo e entrar no rio Purus, subindo em direção ao Sul, até atingir a foz do rio Acre, a partir de onde era possível atingir as cidades mais importantes do território, inclusive a capital, Rio Branco. Sempre foi fácil continuar descendo o rio Solimões e chegar até a cidade de Manaus. 

O trecho navegável mais importante do rio Juruá fica entre a cidade de Cruzeiro do Sul e a foz no rio Solimões, que tem uma extensão total de mais de 2.450 km; entre a cidade de Eirunepé e a foz do Juruá, a distância navegável é de aproximadamente 1.650 km. No período das chuvas, com a alta do nível do rio, é possível seguir a navegação até a região de Taumaturgo de Azevedo, cerca de 330 km a montante de Cruzeiro do Sul. O rio Juruá, assim como outros rios da bacia Amazônica, pode ter grandes cheias: há um ano atrás, ele atingiu a profundidade recorde de 14,2 metros. Porém, devido aos bancos de areia, as profundidades mínimas em alguns trechos podem atingir 2 metros na época das chuvas, caindo para 1 metro no período da seca. Essas baixas profundidades limitam o calado das embarcações utilizadas no rio. 

Os comboios de carga que atendem a região de Cruzeiro do Sul são formados por barcaças com capacidade para até 1 mil toneladas; na época da seca, por razões de segurança, a carga fica limitada a 300 toneladas por barcaça. Pela intensa sinuosidade e falta de sinalização, a navegação noturna não é recomendada, o que faz com que o tempo de viagem de um comboio de carga pelo rio Juruá chegue a 14 dias. Outro seríssimo problema para a navegação no rio Juruá é a falta de terminais de carga e portos adequados para o atendimento das inúmeras comunidades ribeirinhas ao longo das margens.  

O embarque de pessoas e de cargas é feito na base do improviso, onde tábuas são estendidas entre as margens e as barcaças e “regatões”, e as pessoas são obrigadas a realizar verdadeiros malabarismos. Em várias ocasiões, eu tive a chance de acompanhar o embarque e o desembarque de cargas nesses portos improvisados – homens com fenomenal força física, equilibrando sacas de cereais e caixas de madeira na cabeça, enquanto sobem e descem trilhas em barrancos com mais de 10 metros de desnível. Em dias chuvosos, que são frequentes na Amazônia, além do perfeito equilíbrio, é preciso também fazer “mágica” para não cair. E as quedas, quando ocorrem, são simplesmente espetaculares…

A região Amazônica cobre uma área superior a 40% do território do Brasil, com uma população de apenas 25 milhões de habitantes espalhados por toda essa imensidão. Se você consultar um atlas geográfico, vai encontrar duas grandes cidades na região, Manaus e Belém, além de algumas centenas de cidades pequenas e médias espalhadas por todos os cantos. O que os mapas não costumam mostrar são as milhares de pequenas comunidade rurais espalhadas ao longos das margens dos inúmeros rios da bacia hidrográfica, muitas delas formadas por umas poucas dezenas de pessoas, normalmente com relações familiares entre elas. Esses pequenos núcleos habitacionais, em grande parte, foram formados ainda nos tempos do Ciclo da Borracha.  

Para essas pessoas simples destas comunidades das beiradas e dos barrancos (vide foto), a vida depende da navegação pelos rios da Amazônia, indo desde o escoamento das pequenas safras locais até o transporte de doentes para povoamentos com melhor infraestrutura. Sem contar com saneamento básico, luz elétrica e comodidades modernas das mais simples como cozinhar num fogão a gás, a vida destas comunidades é regulada pelos altos e baixos dos níveis dos rios. A perspectiva de estruturação de Hidrovias nos principais rios da Bacia Amazônica, muito além de atender as demandas de transporte de grandes volumes de cargas, tem um outro lado extremamente importante, que é o de atender com qualidade e regularidade essas pequenas comunidades espalhadas por todos os cantos da grande floresta. 

O vale do rio Juruá e suas populações ribeirinhas são exemplos do isolamento, naquele que é um dos lados mais distantes da Floresta Amazônica brasileira, rente as bordas da divisa com o Peru. As cidades e comunidades ribeirinhas da região precisam e merecem uma melhor infraestrutura de transportes, coisa que a eventual implantação de uma Hidrovia no rio Juruá poderá, com toda a certeza, proporcionar. 

Pelo menos é o todos nós esperamos…

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