O LÁTEX E UM CERTO PORTO VELHO

Soldados da Borracha

O látex começou a ser utilizado por indústrias do segmento de confecção ainda no século XVIII, quando era pulverizado sobre capas de chuva com o objetivo de criar uma camada impermeável, que funcionava perfeitamente nos dias de chuva. Em dias de extremo calor, porém, a camada impermeável se tornava grudenta e em dias muito frios ela endurecia e se tornava quebradiça. Outros produtos da época feitos à base do látex apresentavam os mesmos problemas. 

Em 1839, o inventor americano Charles Goodyear, depois de inúmeros experimentos, desenvolveu o processo da vulcanização, onde uma mistura de látex e enxofre era submetida a pressão e calor, permitindo a modelagem das peças de borracha e tornando-as resistentes ao calor e ao frio. Após a invenção deste processo, as aplicações industriais e o consumo do látex no mundo explodiram. A borracha passou a ser a matéria prima de uma série de produtos inovadores: correias para máquinas, sapatos, luvas, chapéus, roupas impermeáveis, flutuadores, bandas de rodagem para rodas de carroças (mais tarde substituídas por rodas com pneus), mangueiras, entre outros produtos. Nas últimas décadas do século XIX, com o uso cada vez maior da eletricidade, peças isolantes à base de borracha ganharam enorme importância no mercado mundial. 

O látex é uma seiva natural produzida por várias espécies de árvores e plantas, com destaque para a seringueira (Hevea brasiliensis), uma espécie nativa da Floresta Amazônica. Detentor de uma parte considerável dessa Floresta, o Brasil rapidamente despontou como o maior produtor mundial de látex. Entre os anos de 1870 e 1920, as exportações de látex respondiam por 25% das exportações brasileiras, só perdendo para o café. A forte demanda da matéria prima e a escalada internacional dos preços levaram a uma busca pelos seringais localizados em áreas cada vez mais isoladas da Floresta Amazônica. Na intrincada rede fluvial da bacia Amazônica, o rio Madeira começou a ganhar destaque pela facilidade de acesso à cidade de Manaus, que era uma das capitais da borracha ao lado de Belém. A foz do Madeira no rio Amazonas fica bem próxima da cidade de Manaus, o que favorecia tanto o transporte das pélas de látex (bolas sólidas de látex defumado) para o porto da cidade, assim como a vinda de embarcações com alimentos, roupas, remédios, ferramentas e demais suprimentos na direção das inúmeras fazendas espalhadas ao longo das margens do rio. 

Com o objetivo de dinamizar ainda mais as exportações do látex da Amazônia, o Imperador Dom Pedro II assinou, em 1873, um decreto autorizando o tráfego de navios mercantes de todas as nações no rio Madeira. Além das preocupações com o látex, essa medida visava atender às demandas das empresas estrangeiras que estavam envolvidas com a construção de uma estrada de ferro na região do alto rio Madeira. O Governo Imperial do Brasil e a Bolívia haviam assinado em 1867, o Tratado de Ayacucho, que estabelecia oficialmente a fronteira entre os dois países. Pelo Tratado, a Bolívia teve de fazer algumas concessões territoriais ao Brasil – em contrapartida, o Governo Imperial se comprometeu a construir uma estrada de ferro ligando o rio Mamoré, na divisa com a Bolívia, ao trecho navegável do rio Madeira, criando assim uma via de transporte para a produção do látex daquele país. Para atender as necessidades logísticas de embarque e desembarque de cargas, foram construídas instalações portuárias na Vila de Santo Antônio no alto rio Madeira, nas proximidades de uma cachoeira – essas instalações eram chamadas de Porto Novo

Entre 1872 e 1878, foram feitas duas tentativas para a construção da ferrovia por empresas estrangeiras, ambas frustradas por epidemias de doenças tropicais, especialmente a malária. As obras só seriam retomadas em 1907, quando uma empresa americana, a Madeira Mamoré Railway Company, capitaneada pelo megaempresário Percival Farquhar, assumiu os trabalhos. Insatisfeitos com as condições do porto local, os dirigentes da empresa optaram pela construção de novas instalações num ponto do rio, alguns quilômetros abaixo, num local conhecido como Porto Velho – essas instalações se transformariam no embrião da futura capital do Estado de Rondônia. Após cinco anos de obras e de inúmeros percalços, entre os quais a morte de milhares de trabalhadores vitimados por  doenças (oficialmente, foram 6 mil mortes), a Ferrovia Madeira-Mamoré, com 366 quilômetros de extensão, começou a operar entre as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim em 1912. Além de transportar cargas da Bolívia, a Ferrovia atendia também os produtores de látex do vale do rio Guaporé

Para infelicidade dos produtores brasileiros, o látex produzido na Malásia e no Ceilão começou a ser colocado no mercado internacional em grandes volumes a partir de 1913, derrubando as cotações do produto e causando fortes perdas econômicas. Nas últimas décadas do século XIX, empresários ingleses haviam contrabandeado milhares de sementes de seringueiras e formado plantações no Sudeste asiático. Essa queda de preços desestimulou cada vez mais a produção do látex no Brasil – a atividade só voltaria a ganhar importância a partir de 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. 

A Segunda Guerra Mundial, conflito que se desenrolou entre 1939 e 1945, colocou as potencias do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão, contra o resto do mundo. Em 1942, o expansionismo imperial do Japão na Ásia levou à invasão de grandes países produtores de látex: Ceilão, Malásia, Birmânia, Filipinas, Bornéo e Cingapura. A partir desses eventos, o látex brasileiro voltou a ser uma matéria prima estratégica para os países aliados como os Estados Unidos, Inglaterra e França. Dentro do esforço de guerra, o Governo brasileiro recrutou os chamados Soldados da Borracha (vide fotos), na sua maior parte formado por nordestinos, para se embrenhar nas matas da Amazônia e extrair o látex, da mesma forma que antigas gerações de seringueiros, também migrantes nordestinos, haviam feito décadas atrás.

Esses Soldados da Borracha, cujo número é calculado em 55 mil homens, receberam inúmeras promessas de prêmios e compensações pela difícil tarefa que tinham pela frente – em 1945, com o fim do conflito e a regularização do fornecimento de látex pela região do Sudeste asiático, tanto os Soldados da Borracha quanto as promessas foram esquecidos nos confins da floresta

A região do Território do Guaporé, que na década de 1980 seria transformada no Estado de Rondônia, só voltaria a receber atenção do Governo Federal a partir do final da década de 1950, quando foram iniciados diversos programas de colonização agrária nas regiões desabitadas do interior do Brasil. Um destes programas, que tinha como lema “Uma terra sem homens para homens sem-terra“, buscava estimular a migração de famílias de trabalhadores rurais para a região Amazônica. Inicialmente, esses programas levaram milhares de famílias para o então grande Estado de Mato Grosso, que depois foi dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Depois, com a construção da rodovia BR-364, que ligou as cidades de Cuiabá, no Mato Grosso, a Porto Velho, em Rondônia, e Rio Branco, no Acre, milhares de famílias, especialmente da região Sul, migraram para os Estados de Rondônia e Acre. 

Nesses novos tempos, o rio Madeira voltou a ganhar importância. Ao invés das antigas cargas de pélas de látex, a grande demanda atual é o transporte das safras de grãos das novas frentes agrícolas criadas em Mato Grosso, Rondônia e Acre. 

Falaremos destas cargas em nossa próxima postagem. 

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