O ABASTECIMENTO DE POPULAÇÕES COM AS ÁGUAS DO IPOJUCA, OU FALANDO DE ESQUISTOSSOMOSE

Caramujo

Enquanto pensava no que iria escrever hoje, reli o meu último texto, onde falei sobre as crescentes e cada vez mais violentas enchentes dos rios pernambucanos, incluindo-se aí o rio Ipojuca – na confortável distância de observador de um trabalho pronto, não tive como não lembrar de uma famosa frase do grande dramaturgo e contista alemão Bertold Brecht (1898-1956):

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Em uma região tão carente de recursos hídricos e com uma grande população, é estranho verificar o tratamento irracional e contraditório que é dado a um importante e vital curso d’água como o Ipojuca, transformado no terceiro rio mais poluído do Brasil e, de tão oprimido que é, contextualizando com a citação de Brecht, avaliar a reação violenta de suas águas nos períodos das enchentes.

Diferente das regiões das cidades de São Paulo e de Curitiba, onde encontramos os rios Tietê e Iguaçu, respectivamente primeiro e segundo colocados na lista dos rios mais poluídos do Brasil, a região onde encontramos o rio Ipojuca não tem a mesma abundância de fontes de abastecimento de água. Na região Metropolitana de São Paulo, os principais sistemas produtores de água estão localizados em outras bacias hidrográficas como o Sistema Cantareira, Guarapiranga e Rio Grande – as águas do rio Tietê são utilizadas para atender uma pequena parte da demanda, porém, são captadas a mais de 90 km quilômetros a montante (rio acima), muito antes do rio entrar na Região Metropolitana e num trecho próximo das nascentes, onde a água ainda apresenta uma ótima qualidade. No caso de Curitiba, parte da água consumida pela população é captada no rio Iguaçu – entretanto, a Região Metropolitana possui outras fontes de abastecimento como os rios Passaúna e Iraí. Estas duas Regiões Metropolitanas podem até sobreviver sem depender exclusivamente das águas dos seus rios poluídos – nas cidades e municípios atravessados pelo rio Ipojuca nem sempre pode-se ter este luxo.

De acordo com informações do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Ipojuca, existem 66 açudes em toda a sua área, sendo que 6 destas unidades possuem capacidade de armazenamento superior a 1 milhão de metros cúbicos de água. As cidades da Região utilizam a água destes açudes e também de diversos ribeirões para o abastecimento de suas populações. Entretanto, em épocas de forte estiagem, como a que se abateu sobre a Região do Agreste nos últimos anos, esses ribeirões secam e os açudes acabam entrando em colapso, forçando as cidades a entrar em um forte sistema de racionamento de água – em alguns casos, este racionamento pode significar 5 dias com água nas torneiras e mais de 20 dias com as torneiras secas. Em situações de extrema carência, as populações mais pobres acabam se voltando para o poluído Ipojuca para captação de água não potável para alguns usos (nos vasos sanitários, por exemplo). Aqui é importante lembrar que a poluição das águas do rio varia ao longo do curso – assim que as águas passam por um agrupamento urbano, como no poluído trecho do rio em Caruaru, há um grande aumento dos despejos de esgotos e outros efluentes; conforme as águas correm a jusante (rio abaixo), processos biológicos e dinâmicos do próprio rio conseguem depurar parte da poluição e melhorar a qualidade da água – nestes trechos serão vistas mulheres lavando roupas nas águas do rio, crianças nadando e pessoas tomando banho ou escovando os dentes, apesar dos graves riscos apresentados pela baixa qualidade das águas do rio.

Há um ponto de reflexão importante aqui, o qual, muitas vezes, acaba recebendo pouca atenção das populações: de acordo com informações do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Ipojuca e que valem para outras bacias hidrográficas, os principais usos das águas são, em ordem de prioridade: o consumo humano e o abastecimento público; a dessedentação de animais, a irrigação, usos industriais, limpeza, geração de energia elétrica, a navegação e a pesca, entre outros usos importantes. O “mau” uso das águas durante e após o consumo humano nas áreas urbanas, quando as águas servidas não recebem qualquer tipo de tratamento antes de serem devolvidas poluídas ao meio ambiente, desrespeita todos os usos seguintes, especialmente nas áreas rurais, onde as populações necessitam da água para seu próprio consumo e usos, incluindo-se aqui o abastecimento e consumo de água nas casas, a dessedentação das criações de animais, a irrigação de plantações, entre outros usos. Sem outras opções para a captação de água de melhor qualidade, parte desta população acaba se servindo das águas de qualidade duvidosa do rio Ipojuca e ficam exposta a riscos de saúde.

Um problema grave que podemos citar é o risco de se contrair esquistossomose (também conhecida como doença do caramujo, barriga d’água, xistose ou bilharzíase), uma doença parasitária grave e que pode trazer sérias consequências para estas populações. Pernambuco é o campeão nacional em mortes provocadas por esquistossomose e das cinco localidades do Estado com o maior número de infestações, duas se encontram às margens do rio Ipojuca: Escada e Ipojuca. No Estado existem duas espécies de caramujos transmissores da doença: o Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea. Estes caramujos, que vivem nas águas de rios e de açudes, são hospedeiros das larvas do verme (cercarias), responsáveis pela doença. Na presença de luz, estas larvas abandonam o hospedeiro e passam a nadar livres nas águas, podendo penetrar através da pele e das mucosas de pessoas que estejam em contato com as águas. Uma vez instalado no corpo humano, o verme – Schistosoma mansoni, um platelminto tremátode, continua a produzir ovos (cerca de 300 ovos por dia ao longo de até 40 anos), sendo que muitos destes ovos são eliminados junto com as fezes do doente – sem o tratamento adequado dos esgotos, esses ovos caem nas águas e o ciclo da contaminação é repetido.

Em sua fase crônica, a esquistossomose pode provocar o aumento do fígado e a cirrose hepática, aumento do baço, hemorragias causadas pelo rompimento de veias no esôfago e a dilatação do abdômen (a conhecida “barriga d’água”), devido ao acúmulo do plasma que sai do sangue e vai parar nos tecidos. Diagnosticada adequadamente, a doença pode ser tratada através de medicamentos que neutralizam o parasita.

Quando não tratado adequadamente, o paciente pode ter sequelas permanentes, como paralisia, ou até mesmo morrer por diversas complicações. Conforme comentamos em postagem anterior, perto de 60% da poluição do rio Ipojuca tem origem no lançamento de esgotos domésticos in natura, um problema que tende a perpetuar o ciclo de contaminação de populações pelo verme e manter alto o grau de preocupação das autoridades de saúde em relação a esta doença. Políticas sérias e continuas de implantação de redes coletoras e de Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs), entre outras medidas importantes, precisam estar entre as prioridades dos Governantes, de forma a garantir a recuperação e preservação da qualidade ambiental do rio Ipojuca, garantindo tanto o abastecimento de água quanto a saúde das populações que vivem ao longo de suas margens.

Observem como é amplo o espectro de preocupações ligadas à qualidade ambiental de um rio como o Ipojuca: começa com os problemas para o abastecimento de água das populações e pode ir até aos problemas de “barriga d’água” provocados pela contaminação das águas por esgotos e parasitas.

Continuamos no próximo post.

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