ADEUS REMANSO, CASA NOVA, SENTO-SÉ E PILÃO ARCADO

Sento Sé

A construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho na década de 1970 foi decidida, junto com tantas outras grandes obras de infraestrutura, nos gabinetes do governo militar, sem consultar o povo, sem maiores preocupações com meio ambiente ou com os impactos negativos que o represamento do Rio São Francisco poderia produzir no futuro. Sobrava dinheiro no mercado internacional para empréstimos para os países em desenvolvimento e os planejadores oficiais da pátria tinham centenas de projetos faraônicos prontos para serem colocados em prática.  Alguma autoridade com o peito cheio de medalhas tomou a decisão e disse “faça-se”. Ninguém questionava uma ordem dessas naquela época.

Calcula-se que 12 mil famílias, o que corresponde a aproximadamente 70 mil pessoas, tiveram de ser removidas das áreas que seriam alagadas após a formação do Lago de Sobradinho. Essa população foi remanejada para outras regiões do semiárido baiano. Quatro cidades localizadas dentro da área de inundação da represa – Remanso, Sento-Sé (vide foto), Casa Nova e Pilão Arcado tiveram as suas áreas urbanas transferidas para outras regiões – as ruínas das antigas casas, igrejas, mercados e demais construções sumiram sob as águas quando o lago encheu. A propaganda oficial da época enalteceu a capacidade das empresas de engenharia brasileiras, falou dos milhares de Mega Watts de energia elétrica que seriam gerados em prol do desenvolvimento da Região Nordeste e outras coisas na linha da “patriotada”. Eu era adolescente na época e, sinceramente, não lembro de ter ouvido falar do drama social de dezenas de milhares de pessoas que, de uma hora para outra, tiveram de abandonar as suas terras e casas, para dar lugar as águas de uma represa.

Os cantores Sá e Guarabyra lançaram na época uma música de protesto contra a construção da represa, que falava da expulsão dos moradores e da destruição das cidades. O nome da música, bastante oportuno aliás, é Sobradinho – um pequeno trecho:

Adeus Remanso, Casa  Nova, Sento Sé
Adeus Pilão Arcado, vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai se embora com medo de se afogar
O sertão vai virar mar…

Eu já trabalhei em algumas obras viárias e de saneamento básico onde o projeto exigia a desapropriação de imóveis dentro da área urbana – este é um processo lento, burocrático e cheio de idas e vindas, que normalmente é feito por pessoas e empresas especializadas no assunto. Sempre que surge a notícia de desapropriação de imóveis para uma obra pública, os preços dos imóveis no local aumentam de preço de maneira “milagrosa”, surgem escritórios de advocacia especializados para defender o direito dos moradores entre outros percalços. Às vezes, alguns projetos acabam sendo mudados de forma a se fugir de alguma desapropriação difícil. Em áreas rurais as negociações costumam ser um pouco mais fáceis. Na década de 1970, em pleno regime militar, não havia tempo para muita conversa – se foi decidido que a obra seria feita naquele lugar, o mais sensato era arrumar as malas e aceitar os termos do acordo. O progresso e o bem estar da nação estavam em primeiro lugar.

No sertão baiano, longe dos olhos do grande público, a máquina governamental usou de toda a sua força (além das falcatruas privadas sobre as quais comentei em meu último post) para expulsar milhares de pequenos agricultores de suas terras (calcula-se que 80% dos desapropriadas eram de áreas rurais) – esses agricultores acabaram dispersos por todo o semiárido, instalados em terras de qualidade muito inferiores às margens férteis do Rio São Francisco; nas áreas urbanas que seriam alagadas, os planejadores construíram novos imóveis em terrenos mais altos e transferiram os moradores – se havia alguma relevância histórica, artística ou arquitetônica nas antigas cidades, azar delas. Passados quase quarenta anos da conclusão das obras da barragem de Sobradinho, ainda existe muita mágoa, tristeza e luta por compensações morais e econômicas por parte desses antigos moradores, organizados em diversos movimentos sociais.

Existe um outro lado nesta história, comum a outras barragens construídas em todos os cantos do país – quem tem acesso privilegiado e antecipado a informações sobre uma obra de barragem, além de saber quais serão as áreas que serão inundadas, sabe também quais serão as terras que, após a formação do lago, terão localização e vista privilegiada com a frente voltada para as águas. Pequenas propriedades em zonas áridas e distantes do Rio São Francisco foram arrematadas por baixos preços por “empreendedores” com bons amigos no governo – após o enchimento do lago, as áreas agora supervalorizadas pelo fácil acesso as águas, foram transformadas em plantações irrigadas, fazendas de lazer, pesqueiros, hotéis fazendas, marinas entre outras ocupações privilegiadas. Quem tem bons amigos, tem “tudo”.

Quando se fala em Sustentabilidade, não há como separar os problemas ambientais, sociais e econômicos – e Sobradinho é um grande exemplo disto.

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6 Comments

  1. E DENTRO DESTE CONTEXTO OS RIBEIRINHOS FORAM CLASSIFICADOS COMO SEM TERRA , SEM DIREITO ,SEM NADA . AS CASAS DE TAIPA É CLARO , FORAM TAXADAS DE CASEBRES SEM VALOR , NÃO SE RESPEITOU O DIREITO AO USO CAPIÃO , TODOS ESTAVAM ALÍ DESDE OS SEUS ANTECPASSADOS. QUE NÃO QUIZ IR PARA SERRA DO RAMALHO , JOGOU O MATULÃO NAS COSTAS E SAIU A PROCURA DE UM LOCAL , POIS A CHESF NÃO DESGNOU AREA PARA TAL.AQUI SÓ TINHA O BISPO DE JUAZEIRO QUE FALAVA AS VERDADES , E COM ISSO ARQUI-INIMIGO DO PODER .
    A LUTA CONTINUA

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  2. […] que encontramos de pessoas e famílias desalojadas pela construção dessa usina hidrelétrica e de muitas outras espalhadas por todo o país, ouvimos relatos de promessas das melhorias que toda a região viveria após a construção dos […]

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