A DESTRUIÇÃO DA ZONA DA MATA: A NORDESTINA E A MINEIRA

Carvoaria em Minas Gerais

A destruição da cobertura vegetal de uma região geográfica de clima tropical é uma das causas mais importantes para o assoreamento dos corpos d’água. Sem a proteção da vegetação, removida para permitir atividades agrícolas, pecuárias, de mineração ou simplesmente para uso da madeira, o solo fica exposto à erosão pela chuva e vento, processos que carregam enormes volumes de sedimentos na direção das calhas dos rios. A depender das características físicas do solo, o desmatamento também pode levar a riscos de desertificação, processo já observado em muitas regiões do Brasil. Como a bacia hidrográfica do Rio São Francisco é bastante extensa e atravessa diferentes biomas, vamos dividir a análise dos problemas do desmatamento, começando pela chamada Zona da Mata.

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum”, a famosa cana-de-açúcar.

Este texto faz parte da introdução de um capítulo de uma das minhas publicações, onde falo da chegada da cana-de-açúcar em terras brasileiras logo no início da nossa colonização. Há dúvidas históricas sobre o ponto exato do desembarque das primeiras mudas de cana ao Brasil: oficialmente, foi na Capitania de São Vicente – alguns documentos sugerem a chegada da planta nas Capitanias de Pernambuco e Itamaracá um pouco antes. Independentemente do ponto exato da sua chegada, o início do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil foi a sentença de morte para uma boa parte da Mata Atlântica na faixa litoral, especialmente na Região Nordeste.

A presença da densa Mata Atlântica era um obstáculo para a agricultura colonial – uma das primeiras providências tomadas pelos novos administradores da terra foi dar ordens para a realização de intensas queimadas para a formação das primeiras clareiras, onde seriam realizados os trabalhos de preparação da terra para o plantio dos primeiros brotos de cana. Pelas imagens disponíveis das grandes queimadas na região da Floresta Amazônica em nossos dias, podemos ter uma ideia muito clara dos incêndios no litoral da Região Nordeste no passado.

Essa destruição da floresta representa apenas uma parte do problema: para cada quilo de açúcar produzido, era necessária a queima de vinte quilos de madeira para gerar a energia térmica exigida pelo processo de produção nos engenhos. Segundo Capistrano de Abreu “tinha cada escravo de cortar e arrumar cada dia uma medida de lenha, alta sete palmos, larga oito, medida de um carro”. Foi esse trabalho sistemático e contínuo que, ao longo de centenas de anos, praticamente dizimou o trecho Nordeste da Mata Atlântica, afetando grandemente um trecho de 100 km no baixo Rio São Francisco, entre o semiárido e a foz, na divisa entre Alagoas e Sergipe. E justamente na foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu em Alagoas, é onde se pode ter uma visão hiper-realista dessa destruição: onde no passado existia uma densa cobertura vegetal encontramos hoje um pequeno deserto com dunas de areia com até 50 metros de altura. As dunas fazem a festa dos turistas e já ocupam uma área com 50 km², que continua a crescer sem parar.

Na Zona da Mata mineira a destruição foi a mesma, porém por razões diferentes. Inicialmente, foi a loucura causada pela “febre do ouro” que empurrou centenas de milhares de aventureiros no rumo dos sertões das Geraes. Na busca desenfreada pelo precioso metal, primeiro foram reviradas e vasculhadas todas as pedras e seixos dos rios na busca do chamado ouro de aluvião – esgotadas essas reservas, a busca passou a se concentrar nos barrancos ao largo dos rios, que tiveram toda a vegetação ciliar derrubada e os terrenos revirados, até que se iniciassem os trabalhos de mineração subterrâneos. Como consequência natural, abriram-se clareiras nas matas para a construção dos primeiros povoados e plantações de culturas rudimentares de milho e mandioca para a subsistência das populações. Num segundo momento, foi a necessidade de produção de carvão para o uso nos fornos de fundição de ouro, que levaram ao corte sistemático de madeira nas matas. Com a consolidação de Minas Gerais como um dos grandes produtores nacionais de ferro e aço de todos os tipos, o avanço do desmatamento aumentou exponencialmente – na falta de carvão mineral para queima nos altos-fornos das produtoras do ferro-gusa (estágio de produção inicial do ferro e do aço), foi o carvão de origem vegetal produzido nas pequenas carvoarias familiares que dizimou a Zona da Mata mineira. Além da intensa devastação ambiental, essas carvoarias faziam e ainda fazem uso de mão de obra infantil, o que só aumenta a gravidade do crime ambiental – 90% da Mata Atlântica no Estado de Minas Gerais desapareceu, grande parte nos fornos das carvoarias e altos-fornos das siderúrgicas.

Sem a proteção da Mata, os solos expostos passaram a ser lavados pelas chuvas e milhões de toneladas de sedimentos de todo o tipo passaram a ser carreados para as calhas dos rios – muitos dos grãos de areia, silte e argila arrastados pelos ventos do Oceano Atlântico rumo as dunas de Piaçabuçu foram carreados, primeiro pelas chuvas, depois pelas águas do Velho Chico desde os sertões das Geraes até a sua foz no mar.

Além do assoreamento e entulhamento das calhas dos rios com todos os tipos de sedimentos, a destruição das matas também causa uma redução considerável no volume de águas das nascentes, podendo até mesmo provocar o desaparecimento de muitas delas – falaremos disto no próximo post.

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