A INDÚSTRIA DO AÇÚCAR E A COMPETIÇÃO COM AS BOIADAS

Coqueiros na Polinésia

Quando alguém nos fala do litoral do Nordeste é comum vir à nossa mente imagens de mares com águas mornas e praias com areias brancas, cobertas por imensos coqueirais a se perder de vista, numa imagem que lembra muito as paradisíacas ilhas do Pacifico Sul – essa semelhança não é mera coincidência. Na chegada dos primeiros portugueses às costas do Brasil, havia uma densa cobertura florestal ao longo do litoral, indo do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte – a Mata Atlântica, que chegava até a linha de areia da praia. Se você visitar trechos do litoral Norte do Paraná e Sul de São Paulo, ou ainda do litoral Norte de São Paulo e Sul do Rio de Janeiro encontrará trechos da Mata Atlântica ainda bem preservados e muito semelhantes aos que existiam na Região Nordeste nos séculos XVI e XVII. Essa Mata foi dizimada a ferro e a fogo para abrir os campos para o cultivo da cana de açúcar – o coco, originário da Índia, chegou com as caravelas portuguesas e, pouco a pouco, foi plantado ao longo do litoral nordestino, dando início, após a decadência da indústria açucareira, aos imensos coqueirais dos nossos dias. A foto que ilustra este post lembra praias de Alagoas ou de Pernambuco – na realidade foi tirada em uma praia do Tahiti, na Polinésia Francesa.

E porque começar a postagem falando disto?

O começo da derrubada da floresta e o plantio dos primeiros canaviais foi feito pelos primeiros colonizadores portugueses, usando a mão de obra de diversos grupos indígenas do litoral, aliados desses nos primeiros anos da colonização. Você deve ter ouvido nos seus primeiros anos de escola que os índios trocavam dias e mais dias de trabalho duro por miçangas, roupas, facas, machados e espelhinhos, o que é verdade. Porém, essa política de boa vizinhança não durou muito e o trabalho voluntário dos primeiros anos foi trocado pela escravidão dos indígenas – Portugal, cada vez mais, pedia carregamentos maiores de açúcar, o que exigia maiores esforços dos indígenas. Acostumados à vida livre e a uma rotina de vida em nada comparada ao trabalho sistemático nas plantações, moendas e casas de purga do açúcar, os indígenas se recusavam a trabalhar, mesmo sob os castigos mais severos. A convivência pacífica deu lugar a violentos embates, resultando em mortes de inúmeros indígenas. Foi neste momento que as tribos e grupos indígenas que ainda não haviam fugido rumo ao sertão nordestino, o fizeram na primeira chance que tiveram – a crescente “indústria” colonial portuguesa passou então a importar escravos da África em grande quantidade para fazer o trabalho pesado nas lavouras e engenhos de açúcar.

O Padre Fernão Cardim (c.1549-1625), reitor do Colégio da Bahia, fez diversas visitas às missões Jesuíticas da região entre os anos de 1583 e 1590. Ele ficou horrorizado com a mortandade dos índios:

“Eram tantos os desta casta que parecia impossível poderem-se extinguir, porém os portugueses lhes têm dado tal pressa que quase todos são mortos e lhes têm tal medo, que despovoam a costa e fogem pelo sertão adentro até trezentas a quatrocentas léguas.”

Quando se entra em um mercado hoje em dia para se comprar um pacote de açúcar por uns poucos Reais, parece não fazer muito sentido o impacto que essa cultura teve nos primeiros séculos de nossa colonização, particularmente na Região Nordeste. Há uma razão muito simples para isso: naqueles tempos, o açúcar podia ser comparado a uma espécie de ouro branco – um produto de luxo, extremamente caro, vendido em pacotes com poucas gramas nas boticas. Vender o açúcar em boticas, as antigas farmácias, se deve ao fato do produto ser considerado remédio para uma série de doenças (a Coca Cola no seu início era considerada um tônico e também era vendida em farmácias); o uso do açúcar como alimento veio depois. O historiador Basílio da Magalhães, autoridade na história do açúcar, nos deixou o seguinte comentário:

“Era droga usual nas boticas, donde saía a título de cicatrizante e para sarar doenças dos olhos, da garganta e de outros órgãos; mas, fora dos usos terapêuticos, artigo de luxo, gozado por grandes senhores e burgueses opulentos.”

Quando uma mulher das altas sociedades europeias se casava, um dos presentes mais “chiques” que os convidados podiam dar era uma caixinha com açúcar. Naqueles tempos, o açúcar era uma das famosas “especiarias do Oriente”, com comércio monopolizado por algumas nações do Oriente Médio e, depois, pelos mercadores venezianos na Europa. Quando os portugueses descobriram que era possível produzir o açúcar em suas terras, primeiro no Sul do Portugal, depois nas ilhas oceânicas da Madeira, Açores, Cabo Verde e, finalmente, nas imensas costas do Brasil, os lucros estratosféricos com a comercialização do produto, simplesmente, fez toda a elite lusitana “perder a cabeça”. Logo, destruir toda a faixa Nordeste da Mata Atlântica, matar ou expulsar algumas centenas de milhares de indígenas “inúteis” ou escravizar e transportar desde a África alguns milhões de negros escravos para trabalhar na indústria açucareira valia muito, muito a pena.

Como já comentado, a criação de bois nas áreas do litoral representava uma ameaça aos canaviais e, não tardou muito, as boiadas também foram expulsas para os sertões, onde descobririam o vale do Rio São Francisco.

Continuamos essa história no próximo post.

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