O “RIOZINHO” QUE VIROU GRANDE MANANCIAL

Bacia do Guandu

O Rio Guandu era, até meados do século XX, um rio comum com nascentes no alto da Serra do Mar, com pouco volume de água e que corria preguiçosamente em direção ao mar, na Baia de Sepetiba. Sem maiores pretensões, suas águas abasteciam algumas cidades e plantações ao longo de suas margens, além de atender a cidade do Rio de Janeiro com um modesto volume de água através da antiga estação de tratamento do Baixo Recalque.

A saga do rio, porém, teria um destino diferente, que começou a ser escrita em 1905 quando da chegada ao Rio de Janeiro da empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company. A efervescente Capital Federal tinha na época mais de 800 mil habitantes, população que ansiava pelas maravilhas da vida moderna que a eletricidade já vinha proporcionando às grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos. Algumas experiências com centrais geradoras elétricas alimentadas a carvão haviam sido tentadas na cidade, porém fracassaram devido ao alto custo do combustível importado e da falta de capitais para financiar o empreendimento. Uma pioneira linha de bondes elétricos que ligava a região do Largo do Machado ao bairro do Flamengo havia sido inaugurada em 1891 – a empresa entrou em falência pouco tempo depois e os bondes voltaram a ser puxados por burros.

Operando em São Paulo desde 1899, a Light já vislumbrava o mercado de geração e distribuição de eletricidade no Rio de Janeiro e, desde 1903, já realizava estudos técnicos acerca da viabilidade da implantação de usinas hidrelétricas no Estado. Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908. Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia do Rio Paraíba do Sul e, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu. Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s. A implementação de todos esses projetos contava com o apoio tanto do Governo Federal quanto Estadual, que visavam a consolidação de um manancial abundante e com potencial para abastecer o antigo Estado da Guanabara e a região da Baixada Fluminense com água de ótima qualidade.

Com a disponibilidade de grandes volumes de água, foram iniciados os trabalhos de construção de uma barragem de abastecimento e de uma estação de bombeamento, além da construção de uma gigantesca estação de tratamento de água – a ETA do Rio Guandu, inaugurada em 1955 no município de Nova Iguaçu. Após sucessivas obras de ampliação, a Estação é considerada hoje como a maior estação de tratamento de água do mundo, sendo responsável pelo abastecimento diário de mais de 8 milhões de moradores na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Grandes obras de engenharia transformaram o pequeno Rio Guandu no principal manancial de águas da capital fluminense. Também foi graças à complexos projetos de engenharia que a Estação de Tratamento de Água do Rio Guandu se transformou na maior do mundo entre seus pares. A própria cidade do Rio de Janeiro dependeu em muito da engenharia para a construção de aterros, pontes, túneis, ferrovias e outras obras que conduziram ao seu crescimento espacial entre os diversos morros e à integração com as cidades vizinhas. Porém, a experiência mostra que faltou engenharia justamente na área de saneamento básico, de modo que se garantisse a manutenção da qualidade de outrora das águas do Rio Guandu e demais afluentes de sua bacia hidrográfica.

No próximo post vamos falar um pouco mais dos problemas do poluído Rio Guandu e das ameaças ao fornecimento de água a milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

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